sexta-feira, março 24, 2006

A VINGANÇA DA MULHER MAL AMADA

A VINGANÇA DE ALEXANDRA
Alexandra´s Project. Austrália, 2003. De: Rolf de Heer. Com: Gary Sweet, Helen Buday, Bogdan Koca. A/DR. 103 min
Comentário:
A câmera adentra as ruas de um pacato bairro de classe média australiano. Ao final do percurso, estamos dentro da casa de Alexandra, mais precisamente no quarto desta que, silenciosa, contempla o marido dormindo. Os seus olhos são de tristeza e a sua angústia velada anuncia que algo estranho está prestes a acontecer. De repente, o silêncio é quebrado pelos dois filhos do casal que trazem presentes e enchem de afagos o pai, aniversariante do dia. Steve está casado há mais de dez anos com Alexandra, é um quarentão ainda atlético, que gosta de se exercitar todas as manhãs, e um executivo de sucesso que coleciona promoções. Ao se despedir para cumprir mais um dia de trabalho, ele mal suspeita que quando voltar nada será como antes.
De posse de um roteiro instigante, o diretor Rolf de Heer desenvolveu um filme simples e rápido, quase todo centrado num único cenário, a casa recheada de aparatos de segurança. Contando com a poderosa e corajosa (face o grau de exposição física e psicológica) interpretação da dupla de atores centrais (ambos premiados na Austrália), a trama retrata as conseqüências drásticas de uma relação matrimonial fracassada, onde o ódio de uma mulher mal amada e tratada durante anos como mero objeto sexual pelo macho provedor é capaz de desencadear uma insana represália. O problema é que essa vingança perpetrada pela personagem título é mais reprovável e cruel do que o comportamento chauvinista do marido. Mais dialogo e menos radicalismo funcionariam melhor, mas como está já desperta a discussão e faz pensar. As feministas vão adorar a figura do homem acuado e sem chances de redenção.

terça-feira, março 21, 2006

SANGUE, MÚSICA (RUIM) E MUITOS ALIENÍGENAS

ATOMIK CIRCUS – LE RETOUR DE JAMES BATAILLE
Idem. França/Alemanha/Grã Bretanha, 2004. Direção: Didier Poiraud, Thierry Poiraud. Elenco: Vanessa Paradis, Jason Flemyng, Benoît Poelvoorde, Jean-Pierre Marielle. 92 min
Comentário:
Num pequeno povoado francês, fundado pelo visionário Bosco (o veterano Jean-Pierre Marielle) para realizar espetáculos circenses e festivais culturais, o jovem alto e bem nascido (assim apresentado pelo roteiro) James Bataille vai trabalhar como dublê de cenas perigosas e termina se envolvendo com a bela Concia (Vanessa Paradis, responsável pelo “clássico” da música pop Vou de Táxi – arrgh!), cantora e filha do dono do lugar. Quando tenta saltar, sob uma moto, uma fileira de barris com pólvora, cai antes do previsto e destrói quase todo o vilarejo. É detido e condenado a 133 anos de prisão.
Passado algum tempo no cárcere, o rapaz decide fugir no mesmo dia em que vários alienígenas estão atacando a comunidade de sua amada. De prisioneiro ele é alçado a condição de herói de ocasião e enfrenta como pode as deformadas figuras espaciais. Uma, inclusive, se aloja no traseiro de um empresário charlatão que tenta transar com a bela Concia.
Após uma trajetória de quatro curtas, os irmãos Poiraud estréiam no mundo do longa metragem com esse verdadeiro samba-do-crioulo-doido. É uma homenagem explícita ao cinema trash dos anos cinquenta, com muitos monstros mal feitos e sangue espirrando a cada minuto. O cachorrinho mecânico é o exemplo máximo dessa precariedade proposital que permeia todo o filme. Não é uma produção Z, mas sim um filme classe A com acabamento bem tosco. Infelizmente, em algum momento o ritmo cai e o final em aberto não contribui nem um pouco. Mas os diretores demonstram talento e num futuro próximo devem surpreender.

sábado, março 18, 2006

AS CONTRADIÇÕES DA ALMA

O MUNDO DE LELAND
The United States of Leland. EUA, 2003. De: Matthew Ryan Hoge. Com: Don Cheadla, Ryan Gosling, Jena Malone, Chris Klein, Kevin Sapecey, Lena Olins, Michelle Williams, Martin Donovan, Ann Magnuson, Kerry Washington, Sherilyn Fenn, Matt Malloy, Michael welch. OP/DR. Visto 12/03 (DVD) 108 min
Comentário:
O maior prazer para um cinéfilo é descobrir pequenas obra-primas em celulóide. E o melhor é quando essa descoberta reside em títulos obscuros e desconhecidos. Nunca tive vontade e nem planejei assistir ao filme O Mundo de Leland, tanto que ele me chegou por acaso,através de um irmão. Lançado direto em DVD, ele sequer foi comentado pelas revistas especializadas e sites de renome. Uma falta grave, pois é daquelas obras que grudam feito chiclete e continua viva na memória dias, meses e até anos depois de termos assistido. É cinema que acrescenta e nunca subtrae.
Trata-se de mais um belo exemplar do que vem sendo produzido pelo cinema independente americano. Bancado pelo ator Spacey e dirigido pelo desconhecido Matthew Ryan Hoge (cuja experiênca anterior se resume a uma comédia pouco vista chamada Self Storage, de 1999), O Mundo de Leland é um filme complexo, mas perfeitamente compreensível. Fala das inquietações e dos temores humanos, da falência das famílias modernas e da ausência de perspectivas por parte dos jovens, outrora rebeldes e hoje seres apáticos, sem rumo e conteúdo algum.
O mundo do jovem Leland Fitzgerald, um adolescente de 16 anos, é sombrio, triste e feito de pequenos contentamentos, como namorar a jovem Becky Pollard, uma garota frágil e há muito mergulhada no mundo das drogas. Filho de um escritor renomado, cujo grande talento é proporcional a arrogância, o garoto foi criado pela mãe e não vê o pai desde os seis anos de idade, quando este os abandonou.
Somos apresentados a trama pela narração em off do protagonista, que tece uma série de questionamentos interessantes e dá a entender que fez algo de errado naquele dia, mas não consegue lembrar o quê. Na verdade, Leland cometou um crime e não nega a autoria do mesmo, mas não sabe discorrer sobre as razões que o levaram ao delito. O mais chocante, é que a vítima é o inofensivo irmão caçula de sua namorada, portador de deficiência mental. Após esse inicio forte e cheio de mistério, o diretor vai confeccionando coerente e lentamente a colcha de retalhos formada por Leland e todos os outros personagens que o circundam. É um carrossel de emoções diversas construído de forma hábil, aonde o uso de idas e vindas narrativas é constante, mas jamais confuso ou capaz de desviar o foco da ação.
Preso, o jovem começa a chamar a atenção pela sua inteligência e conformismo e concorda em relatar a sua vida ao professor da unidade corregional, um escritor frustrado que vê na história o tema ideal para um livro de sucesso. É dele,inclusive, uma frase genial:” ...um indivíduo só se torna escritor quando as pessoas lêem a sua obra...... “. A relação do dois é pautada na confiança mútua e é bastante curioso ver a moral e a ética do professor supostamente “íntegro” ser questionada por um “assassino” confesso, quando o primeiro traí a namorada de muitos anos com uma jovem colega de trabalho pelo simples e instintivo prazer sexual.
Não esperem uma solução óbvia demais, pois as razões para o crime estão no interior do jovem Leland, que carrega dentro de si um universo vasto de emoções contraditórias, sentimentos dúbios e dúvidas recorrentes. Quase sempre impassível, sem demonstrar emoções, ele transita entre o bem e o mal e mata o garoto para exorcisar toda a tristeza que envolve o seu ser e salvar de uma vida limitada e infeliz as pessoas que ama. O final é extremamente comovente e evita qualquer julgamento moral, pois o próprio Leland também é uma vítima gerada e criada no seio de uma sociedade destruída pela violência, destituída de valores éticos e submersa na vala comum da hipocrisia.
Destaque para todo o elenco, formado pelos mais talentosos atores do momento. Gosling confirma todas as expectativas e, aos 23 anos, dá veracidade e conteúdo a um personagem difícil, sete anos mais jovem, e que não emite emoção alguma. Don Cheadle compõe um escritor e professor dedicado, totalmente dividido entre a vontade de ajudar e ao mesmo tempo tirar proveito da história em benefício próprio. Neste ponto ele se iguala ao ausente e ambicioso pai de Leland, que colocou a carreira acima de tudo e é personificado, com a competência habitual, por Spacey. Por fim, temos a gracinha da Jena Malone como a namorada drogada e Martin Donovam, uma figura constante nas obras independentes, como o pai do garoto assassinado. A única exceção é o fraco Chris Klein, totalmente inexpressivo num papel chave. Mas não compromete o excelente resultado final.

terça-feira, março 14, 2006

ESSE OBSCURO OBJETO DE DESEJO

UM PONT ENTRE DEUX RIVES
Idem, França, 1999. De: Gerard Depardieu e Frédéric Auburtin. Com: Carole Bouquet, Gerard Depardieu, Charles Berling, Stanilas Crevillén, Dominique Reymond, Mélanie Laurent. OP/DR. Visto 12/03 (TV 5) 95 min
Comentário:Lembro de Carole Bouquet na sua estréia diante das câmeras em Esse Obscuro Objeto de Desejo (1977), último filme do mestre Luis Buñuel. Vivendo um papel duplo, também interpretado pela espanhola Agela Molina e fruto da mente surreal de Buñuel, a sua gélida e sensual personagem leva à loucura um homem mais velho (Fernando Rey). E diante da beleza pálida de Bouquet, qualquer loucura é justificada. Depois deste começo, foi bond-girl, participou de muitas fitas obscuras e pouco vistas na década de 80 e encontrou o seu espaço dentro do cinema fracês nos anos 90. Casou com a “máquina de fazer filmes” Gerard Depardieu, e este, em agradecimeto por ela agüentar os seus vários quilos a mais, dirigiu este filme nostálgico e sensível. Aos 42 anos, Carole está luminosa como Mina, uma dona de casa em plena década de 60 que vive com o filho adolescente (o bom Crevilée) e o marido desempregado (Depardieu). Diante da falta de perspectivas, ela aceita trabalhar como cozinheira na mansão da família Daboval e tem como único passatempo as alegres tardes de domingo passadas dentro do cineminha local. O marido encontra uma nova função com mestre de obras na construção de uma ponte, numa cidade próxima, e começa a se ausentar, tempo suficiente para que Mina conheça Matthias, o engenheiro da ponte, e inicie uma nova história de amor, com a relutante cumplicidade do filho. Em determinado momento a verdade vem à tona e como estamos diante de um filme francês, a resolução é bastante civilizada e satisfatória, como deveria ser na vida real, mas não o é. Esta é a segunda experiência de Depardieu como diretor, antes havia feito Tartuffo em 84, e ele demonstra ter aprendido bem o novo ofício. O filme é bem conduzido, corretamente fotografado e apresenta uma convicente recostituição dos anos sessenta (a trilha sonora é uma delícia!), mas o maior destaque é mesmo a beleza madura de Bouquet. Ao contrário de outras atrizes quarentonas, cada vez mais deformadas pelo Botox, ela não esconde a sua maturidade e por isso mesmo imprime jovialidade e carisma a um personagem que também consegue conquistar os espectadores, tornando totalmente verossímil a paixão imediata sentida pelo engenheiro. Tudo bem, é meio estranho ver Carole, com seu ar aristocrático, servindo mesa e cortando cebola, mas se até a patricinha milionária Paris Hilton (argh!) tirou leite de vaca e fez faxina no reality show The Simple Life, o filme está mais do que perdoado.

sexta-feira, março 10, 2006

A PATRICINHA LOIRA GANHOU O OSCAR E O CAWBOY GAY FOI ESNOBADO

Não poderia deixar de registrar aqui neste democrático blog, uma das melhores observações feitas sobre a noite do Oscar e , mais especificamente, a ganhadora do prêmio de melhor atriz: a eterna "Ilegalmente Loira" Reese Witherspoon. Esta peróla foi criada pelo cineasta e crítico pernambucano, Kleber Mendonça Filho, e corrobora com a mesma sensação que tive ao ver a loirinha agradecendo a láurea alcançada e deixando para trás a caracterização perfeita de Felicity Huffman, como um transexual, no filme Transamerica.
"........o prêmio "Alçapão 2006" foi para Reese Witherspoon e vê-la vestida de sinhá com jeito de guaxinim nos fez entender que seu melhor papel até hoje, como a adolescente ambiciosa de Eleição (1999), talvez não tenha sido, no final das contas, uma atuação. Witherspoon levou Melhor Atriz por Johnny e June, sobre a vida de Johnny Cash, mais um Oscar do "kit padrão" hollywoodiano........."
Antes de finalizar, não posso deixar de falar do maior mico do evento que foi premiar Crash em detrimento do franco favorito, Brokeback Montain. Mais uma prova irrefutável de que os membros da Academia estão cada vez mais velhos e gagás. Conservadorismo e prepotência diante do óbvio, nos dias de hoje, só gera mais intolerância e reforça a doutrina de criaturas deploráveis como o Sr. George W. Bush. Atual Imperador do Planeta Terra, ele já deixou de cuidar do bem estar do povo americano há muito tempo (os sobreviventes de New Orleans que o digam), papou o Iraque e está, discretamente, direcionando o seu arsenal bélico para o Irã. Até lá, eu espero que não lembre da nossa Floresta Amazônica para compor a sua coleção de conquistas. À ele, o Oscar mais justo de todos, o de Idiota do Ano.

quarta-feira, março 08, 2006

PETER PAN E A SOMBRA DO TERRORISMO

MUNICH
Idem. EUA,2005. De: Steven Spilberg. Com: Eric Bana, Daniel Craig, Ciarán Hinds, Mathieu Kassovitz, Hans Zischler, Mathieu Almaric, Ayelet Zorer, Michael Lonsdale, Geoffrey Rush, Marie-Josée Croze, Gila Almagor, Moritz Bleibtreu, Valerie Bruni Tedeschi, Lynn Cohen, Yvan Attal, Robert John Burke, Yahuda Levi. A/DR. Visto 03/03 . 164 min
Comentário:
Spilberg é Spilberg e ninguém pode lhe tirar o mérito de ser um dos mais influentes diretores das últimas décadas. Subverteu o gênero do suspense, tornando carros e animais marinhos aterrorizantes (Encurralado e Tubarão); deu um nono e poderoso impulso aos filmes de aventura (Indiana Jones); ensinou que os extraterrestres também podem ser camaradas (E.T. e Contatos Imediatos do Terceiro Grau); e mostrou sem retoques os horrores vividos pelo seu povo durante a segunda guerra (A Lista de Schindler). Taxado de eterna criança e Peter Pan da indústria cinematográfica, face aos recorrentes temas infantis e a constante mania de instituir em suas obras improváveis finais felizes, num mundo onde a falta de caráter e o ódio racial imperam. Seus personagens sempre têm um surto de bom mocismo e eventualmente atingem a redenção. Exemplo crasso é o personagem Arthur Schindler, que tem um deslavado surto emocional na última cena do filme que deu o Oscar ao diretor e comprovou que ele também poderia desenvolver temáticas adultas, apesar da derrapada final com o objetivo de verter lágrimas nas platéias mundiais e glorificar um personagem que, apesar do apoio aos judeus, era antes de tudo um comerciante e não a “mamãe Dolores” apregoada pelo diretor. Mas críticas a parte, após sucessivas derrapadas (O Terminal, Guerra dos Mundos), ele retorna ao mundo dos adultos e aborda o espinhoso conflito entre árabes e judeus. Adaptando o romance Vengeance: The True Story of an Israeli Counter-Terrorist Team, de George Jonas, ele retrata com virtuosismo técnico e violência explícita o sangrento seqüestro perpetrado por terroristas do grupo Setembro Negro contra atletas israelenses, durante as Olimpíadas de Munich em 1972, e as suas inevitáveis conseqüências políticas. Acuada por não ter negociado com os terroristas, a Primeira Ministra de Israel, Golda Meir, deixa a diplomacia de lado e vê como única alternativa pagar na mesma moeda a chacina que eliminou nove atletas e manchou de sangue a bandeira de Israel. Para cumprir a tarefa, convoca a temida Mossad, polícia secreta israelense, para planejar e executar o plano de vingança. O jovem Avner, ex-guarda-costas da Ministra, é designado como líder da equipe formada por mais quatro membros, todos com passado desconhecido e unidos em torno de um único objetivo: localizar e matar, um a um, os 11 terroristas árabes envolvidos no atentado de Munich. Vivendo como clandestinos e contando com as informações do francês Louis, uma fonte duvidosa, que na verdade trabalha para os dois lados e coloca em risco a vida dos agentes. Trabalhando com um elenco internacional, predominantemente formado por australianos e ingleses e sem nenhum americano (fato raro na obra de Spilberg), o diretor traça passo a passo o planejamento e a execução dos assassinatos, intercalando cenas do seqüestro em Munich e destacando o crescente conflito ético vivido pelo personagem de Avner. Ao mesmo tempo em que executa friamente os seus alvos humanos, acompanha o nascimento da filha e é privado do convívio familiar. Aos poucos , ele vai perdendo a sua identidade e o foca da missão, virando um mero e frio assassino sem pátria e objetivos de vida. Sem tomar partido, a mensagem de Spilberg é clara: um conflito que de início tinha como foco a disputa territorial, transformou-se num banho de sangue desmedido, onde a vida humana perdeu o seu valor e o ódio racial tomou o espaço ocupado pela ideologia política e o amor pátrio. Desde já, um dos melhores filmes do diretor, com fotografia de Janusz Kamisnski, roteiro de Tony Kuschner e Eric Roth e música de John Williams que pontua com maestria os momentos de tensão. Foi indicado para cinco Oscars e não ganhou nenhum.

sexta-feira, março 03, 2006

UMA PAUSA PARA O OSCAR

Faltam dois dias para o tapete vermelho ser estendido e receber diretores, produtores, estrelinhas de ocasião, astros em ascensão e muito glamour. Neste momento a Internet está infestada por pseudos-críticos e alguns bogueiros metidos a besta dando palpites infundados a cada minuto. Diante de tanto amadorismo, nada melhor para o momento do que reproduzir uma matéria séria e bastante informativa de Arthur Spiegelman, jornalista da respeita Agência Reuters de Notícas. Ele está em Los Angeles e vivencia todo o clima pré-cerimônia, ao contrário dos palpiteiros locais.

Por Arthur Spiegelman

LOS ANGELES (Reuters) - O Oscar deste ano será gay ou violento? O que parecia uma corrida fácil para uma dupla de cowboys homossexuais pode se transformar numa disputa acirrada. O favorito "O Segredo de Brokeback Mountain" parece estar enfrentando uma ameaça de última hora com o drama racial "Crash -- No Limite" na luta pelo prêmio de melhor filme, sugerem entrevistas com membros da Academia e especialistas em Oscar.
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood mantém o resultado da votação em segredo completo até o momento da verdade: a cerimônia deste domingo, que será vista por centenas de milhares de pessoas em todo o mundo e apresentada pela primeira vez pelo comediante de língua afiada Jon Stewart.
Todo o segredo não evitou especulações sobre uma virada depois de meses de previsões de que o prêmio mais importante da indústria cinematográfica iria, pela primeira vez, para uma história de amor gay, "O Segredo de Brokeback Mountain". O filme recebeu oito indicações, mais do que qualquer outro este ano, e tornou-se um fenômeno social como objeto de discussão, piadas e paródias.
A revista People publicou um encarte especial sobre o Oscar esta semana, no qual a manchete, em cor-de-rosa choque, declarava: "Oscar: Sim, sou Gay". O título estava sobreposto a uma fotografia da estatueta de ouro e a pôsteres de "Brokeback" e de dois outros filmes, "Capote" e "Transamerica".
"Oito indicações para o filme cowboy gay, duas para a fita transexual, cinco para a história de Truman Capote. À primeira vista, a lição da premiação da Academia este ano é simples. O atalho para a glória do Oscar é uma palavra com três letras: g-a-y", explicava a People.
"Ouvi mais pessoas falando em votar em 'Crash' do que em 'Brokeback', mas lembro quando todos os membros da Academia com quem havia conversado em 2002 disseram que tinham votado em 'Moulin Rouge -- Amor em Vermelho', e o favorito daquele ano, "Uma Mente Brilhante", ganhou. É muito difícil desbancar um favorito", afirmou o especialista em Oscar Tom O'Neil.
O dramaturgo e ativista pelos direitos dos gays Tony Kushner, autor de "Anjos na América", que concorre a um Oscar como co-roteirista de "Munique", diz que algumas pessoas estão "assustadas com 'Brokeback' porque se trata de um filme gay".
FILME AUDACIOSO
Mas ele acrescentou: "Às vezes você faz algo corajoso e destemido e assume o risco. Toda Hollywood está se sentindo assim com relação a 'Brokeback'. O filme vai se sair muito bem na disputa. É um filme lindo e, graças à corrida pelo Oscar, alguns milhões de pessoas a mais vão assisti-lo e mudar suas opiniões".
Os cinco indicados para melhor filme, que ainda incluem "Munique", "Capote" e o drama da era McCarthy "Boa Noite e Boa Sorte", é um grupo sério -- filmes com temas que refletem o debatido liberalismo de Hollywood. Como grupo, eles não se saíram muito bem nas bilheterias.
Por exemplo, "O Segredo de Brokeback Mountain" arrecadou 75 milhões de dólares após 12 semanas em cartaz, cerca de 2 milhões de dólares a menos que "Guerra dos Mundos" em quatro dias em exibição, em julho passado.
"Crash -- No Limite" se passa em Los Angeles e pode atrair a atenção dos eleitores do Oscar, já que muitos vivem na cidade e podem simpatizar com o tema do filme, raças que não se misturam até colidirem uma com a outra em seus carros. O filme recebeu seis indicações ao Oscar, mesmo número de "Boa Noite e Boa Sorte" de George Clooney.
Alguns especialistas dizem que a única aposta certa de vitória numa categoria importante é a de melhor ator, para Philip Seymour Hoffman. Hoffman faz o papel de Truman Capote em "Capote". Em sua interpretação, o escritor norte-americano é um bom vivant manipulador e ambicioso que ganha a confiança de um assassino confesso, e então deixa o homem e seu parceiro morrerem a fim de obter um final para seu livro, "A Sangue Frio".
Mas, mesmo nesta categoria, a competição é acirrada. Hoffman deve derrotar Terrence Howard de "Ritmo de um Sonho", Heath Ledger lutando contra seus próprios sentimentos como um dos cowboys de "Brokeback", Joaquin Phoenix como o cantor Johnny Cash em "Johnny e June" e David Strathairn como o jornalista Edward R. Murrow em "Boa Noite".
A corrida pelo Oscar de melhor atriz ainda está muito embolada entre as favoritas Reese Witherspoon, no papel da cantora June Carter em "Johnny e June", e Felicity Huffman, interpretando um homem que está prestes a se submeter a uma operação de mudança de sexo em "Transamerica".
Mas é difícil prever o vencedor até mesmo em categorias que não são consideradas as principais, como a de melhor filme estrangeiro. Três dos cinco filmes indicados -- o palestino "Paradise Now," o sul-africano "Tsotsi" e o alemão "Uma Mulher contra Hitler" -- têm chances na disputa.
Então prepare-se, pegue o saco de pipocas e espere para ver quem vai ganhar no domingo. O Oscar pode ou não ser gay neste ano, mas com certeza ele será cheio de surpresas.

quarta-feira, março 01, 2006

DIVINA LOUCURA

PINK FLAMINGOS
Idem. EUA, 1972. De: John Waters. Com: Divine, David Lochary, Mink Stole, Mary Vivian Pearce, Danny Mills, Edith Massey, Cookie Mueller. A/C. Visto 28/02 (Cinemax) 108 min
Comentário
Divine recebe o título de “A Pessoa Mais Obscena do Mundo” e desperta a inveja do casal Raymond e Connie Marble. Eles são tarados, ladrões e se acham merecedores da alcunha concedida ao obeso travesti, pois levaram anos construindo um rentável império formado por lojas pornôs e por um negócio dos mais politicamente incorretos, que consiste em seqüestrar jovens mulheres, engravida-las a força e vender os bebês para casais de lésbicas (!). Obstinados, descobrem o paradeiro da rival, que usa o nome verdadeiro de Babs Johnson e vive num trailer em companhia da mãe, viciada em ovo e que passa os dias dentro de um cercadinho, do filho tarado e da amiga voyeur. Depois de algumas reviravoltas, o confronto entre o casal e a heroína é inevitável e repleto das mais absurdas seqüências. Clássico absoluto do mau gosto e da liberdade vivenciada pelos precursores do cinema americano independente no final dos anos 60 e início dos 70, este Pink Flamingos é o terceiro longa de John Waters, rodado em 16 mm, tendo como cenário Baltimore, a sua terra natal, e como estrela Divine, ou melhor Harris Glenn Milstead (morto em 88, vítima de um ataque cardíaco). De lá para cá, o mundo mudou e a América involuiu, corroborada pela chegada ao poder dos conservadores republicanos e das suas noções tortas de ética, justiça e moral exacerbada. O máximo de ousadia hoje nos Estados Unidos é a visão cândida de um seio fujão da cantora Janet Jackson durante um evento esportivo, suficiente para virar escândalo internacional e trazer a tona a crescente ausência de liberdade de expressão vivida pelos americanos da era Bush. Até o outrora ousado Waters, tirou o time de campo e só produz comediazinhas insossas e convencionais. Melhor ficar com as duas cenas clássicas da sua fase áurea, que fariam o titio Bush corar: o repugnante close de um ânus prestes a defecar e a insana “mamãe” Divine realizando um espontâneo e explícito fellation para acalmar a ansiedade do seu filhinho. Mais transgressor, impossível!. Essa é uma versão restaurada pela New Line em virtude da comemoração de 25 anos do filme, e traz ao final comentários do diretor, sempre elegante de terno, gravata borboleta e o indefectível e bem aparado bigodinho.

domingo, fevereiro 26, 2006

O OBJETO DE DESEJO

O JOELHO DE CLAIRE
Le Genou de Claire. França, 1970. De: Eric Rohmer. Com: Jean-Caude Brialy, urora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan, Michele Montel, Gerard Falconetti, Fabrice Luchini. L/DR.Visto25/02(TV5)105min
Comentário:
Antes do primeiro contato com a extensa obra de Rohmer, o espectador médio deve ter a consciência de que estará diante de um filme excessivamente falado, repleto de cenas contínuas, nenhum movimento elaborado de câmera, cortes rápidos e desprovido de ação física. Avisado sobre esses detalhes, é só se desligar do mundo por algumas horas e mergulhar num universo repleto de frases deliciosas, personagens dúbios e sentimentos velados. Oriundo da crítica francesa e um dos pilares do movimento da Nouvelle Vaghe, Rhomer alcançou sucesso internacional com esta obra que ganhou diversos prêmios: National Board of Review, San Sebastián, Sindicato dos Críticos Franceses e uma indicação ao Globo de Ouro. O filme é um retrato sem retoques de um homem beirando os quarenta anos que retorna a um agradável balneário francês com o objetivo de vender a casa de campo da família. Jérome é diplomata de profissão e está decidido a casar com a amante de muitos anos não por amor, mas por estar acostumado com ela, como ele mesmo diz. Sob um agradável clima de verão, ele passa os dias em companhia da amiga Aurora, uma escritora com quem trava ácidos diálogos sobre o relacionamento homem-mulher. Com o passar dos dias, anunciados didaticamente por letreiros que entram inadvertidamente em cena, outros personagens vão surgindo e modificando a pacata rotina do campo. Primeiro a adolescente Laura, que se apaixona por Jérome e em seguida a sua irmã Claire, que ao contrário da primeira trata o diplomata com indiferença. Indiferença que instiga e desperta o desejo de Jérome, personificado no joelho da jovem. Essa inusitada parte do corpo é evidenciada quando Claire sobe uma escada para colher frutas silvestres (cena já clássica) e num segundo momento quando o namorado da jovem toca o joelho da mesma, demonstrando sutilmente o sentimento de posse que permeia a relação dos dois. O antes calmo, centrado e galanteador diplomata é tomado pela inveja e deixa aflorar os seus instintos humanos mais baixos, não pensando duas vezes quando tem a oportunidade de destruir o namoro dos jovens. Ele flagra o namorado de Claire com outra e o delata de imediato, como mero pretexto para fragilizá-la, tocar o seu joelho e assim satisfazer seu desejo, sem mensurar as conseqüências e a falta de ética deste ato. É um final que choca pela exposição direta da natureza humana, repleta de fraquezas escondidas sob faces inocentes e discursos programados. Componente da série batizada por Rhomer de Contos Morais, esta obra permanece na nossa memória feito cola e incomoda como poucas, pois joga na cara as imperfeições e os desvios de caráter aos quais todos somos suscetíveis. Aos 86 anos (!), o diretor continua a filmar e talvez só perca em longevidade para o português Manoel de Oliveira que já ultrapassou a barreira dos noventa anos. Ele mantém uma obra coerente com os seus primeiros trabalhos, onde o maior mérito é radiografar os seres humanos com sutileza e bom gosto, sem fazer concessões de nenhuma natureza. Destaque no elenco para Brialy, discreto e convincente como o dúbio Jérome e Fabrice Luchine, loiro e adolescente e uma presença obrigatória em outros filmes do diretor. O restante do elenco não conseguiu desenvolver uma carreira nos cinemas: a bela Laurence de Monaghan faz uma eficiente Claire, atuou em mais cinco longas e abandonou a carreira em 79; Gérard Falconetti, no papel do namorado de Claire, é neto da lendária atriz Renée Falconetti (A Paixão de Joana D´Arc, 1928 de Dreyer) e morreu prematuramente em 84, após pequenos e inexpressivos papéis. A fotografia é do renomado Néstor Almendros, que ganharia o oscar em 78 pelo belo Cinza no Paraíso, de Terrence Malick e viria a falecer em 92, vítima da Aids.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

EM BUSCA DO FILHO PERDIDO

HONRA E LIBERDADE
River Queen. Ing./Nova Zelândia, 2005. De: Vincent Ward. Com: Samantha Morton, Cliff Curtis, Kiefer Sutherland, Temuera Morrison, Anton Lesser, Rawiri Penne, Stephen Rea, Wi Kuki Kaa. OP/DR. Visto 18/02 (DVD). 114 min
Sinopse: Em 1860, durante a colonização britânica da Nova Zelândia, a irlandesa Sarah O´Brien(Samantha Morton) mora junto com o pai num posto militar de fronteira e convive livremente com o povo Maori, donos naturais da ilha invadida. Com o passar do tempo, a jovem envolve-se com um dos nativos e fica grávida. O pai da criança morre vitimado por uma doença tropical e o garoto é raptado pelo avô paterno. Abandonada pela família e em companhia do soldado Doyle (Sutherland), Sarah passa incansáveis sete anos em busca do filho até que, em meio a violentos confrontos bélicos entre invasores e aborígines, é seqüestrada e levada a tribo onde o filho vive. Em função dos conhecimentos médicos herdados do pai, ela terá que salvar o líder local em troca do direito de levar o menino, agora crescido e totalmente inserido na cultura Maori. Este filme marca o retorno a direção de Ward, após uma ausência de quase sete anos sem filmar e é resultado de uma produção problemática. Primeiro foi a estrela Morton que teve que se ausentar por problemas de saúde. Depois o diretor foi demitido e a direção assumida pelo fotógrafo Alun Bollinger. Ward acompanhou tudo a distância e terminou retornando para finalizar a obra que ele mesmo escreveu. A sua visão permaneceu impressa em cada fotograma e as imagens apresentadas são de uma beleza plástica poucas vezes vista em celulóide. Mas carece de um pouco mais de ritmo e ao final de 114 minutos de duração, temos a impressão de ter visto uma fita com mais de três horas. Foi lançada no Festival de Montreal e saiu direto em DVD no Brasil. Agora, alguém pode me responder porque Kiefer Sutherland, no auge da carreira com 24 Horas, aceitou esse papel pequeno e ingrato do soldado irlandês que protege a jovem heroína?. Só chamando Jack Bauer para desvendar esse mistério.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

TALENTO DE SOBRA E UM CIGARRINHO PARA DESCONTRAIR

ELLIE PARKER
Idem. EUA, 2005. De: Scott Coffey. Com: Naomi Watts, Rebecca Riggs, Scott Coffey, Mark Pellegrino, Chevy Chase, Blair Mastbaum. OP-14/C. Visto 15/02 (DVD). 95 min
Sinopse
Este filme totalmente independente, feito em vídeo digital, é o registro definitivo do talento versátil e inquestionável de Naomi Watts. Considerada uma das melhores atrizes dessa nova geração, essa inglesa de nascimento, criada na Austrália e grande amiga de Nicole Kidman, já soma uma indicação ao Oscar (pelo filme 21 Gramas) e quase 20 prêmios ao seu currículo cinematográfico. Aqui ela interpreta Ellie Parker, uma atriz insegura a procura de trabalho. Em estado de constante excitação, ela não seleciona mais a qualidade dos trabalhos e passa os dias indo de um teste a outro. Nos intervalos tenta lidar com a traição do namorado, fuma maconha com a melhor amiga e descobre um novo interesse romântico em pleno acidente de trânsito. Apesar da pouca qualidade técnica, o bom humor do texto e a interpretação magistral de Watts se sobressaem. É a versão em longa metragem de um curta com o mesmo elenco e personagens, que fez sucesso no Festival de Sundance de 2001. O longa levou os prêmios de direção e atriz no Festival Internacional de Seattle. Reparem em certas ousadias inimagináveis de se ver no circuito comercial, como o consumo exagerado e real de maconha e a intimidade dos personagens, cujo momento máximo é Naomi urinando (!). Diferentemente da película, o vídeo permite uma proximidade maior e os atores sempre estão em close-up, nos dando a sensação de que assistimos a uma gravação caseira. Destaque para a presença de um envelhecido Chevy Chase, no papel do agente de Ellie.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

CHINA X JAPÃO: OS OLHOS PUXADOS DA DISCÓRDIA

A BORBOLETA PÚRPURA
Zi Hudie. China, 2003. De: Ye Lou. Com: Ziyi Zhang, Tôru Nakamura, Ye Liu, Yuanzheng Feng, Bingbing Li, Kin Ei. Visto 09/02 (DVD). 124 min
Sinopse: Na Manchúria chinesa, em 1928, durante a ocupação japonesa, Itami, um operário japonês, apaixona-se pela chinesa Cynthia. Mas a felicidade dura pouco, e o exército o convoca para o serviço militar. Na despedida dele, Cynthia vê o assassinato do irmão, por um soldado japonês de extrema direita das forças de ocupação. Três anos depois, Xangai é uma cidade tensa, onde prevalece a violência e o caos. Cynthia agora chama-se Ding Hui e trabalha para a organização clandestina "Borboleta Púrpura", grupo de resistência que planeja matar Yamamoto, o chefe do serviço secreto japonês. Itami, o antigo namorado, também está em Xangai como agente secreto, respondendo diretamente a Yamamoto. O reencontro dos dois é inevitável e trágico.
Comentário: Este filme é quase um retrato nacionalista e parcial de um período histórico desconhecido por muitos ocidentais e que deixou marcas profundas nas relações diplomáticos de duas grandes potenciais orientais: a China e o Japão. Rodado e produzido pelos chineses, registra a ocupação orquestrada pelos japoneses na década de 30 contra a China, que teve como momento crítico a sangrenta invasão da cidade de Xangai ,em 1937, pelas tropas militares. Fotos e imagens de arquivo apresentadas ao final do filme, mostram a brutalidade desta ação que eliminou vidas inocentes e dizimou uma cidade inteira, além de outras que se seguiram. Neste sórdido contexto, o filme acompanha os primeiros focos de rebelião e a silenciosa invasão perpetrada pelos japoneses, através da trajetória de dois personagens bem distintos. Primeiro a jovem estudante Cynthia, que assiste o assassinato do irmão, um jornalista subversivo, e é abandonada pelo amante japonês que retorna ao seu país natal para servir ao exército. Alguns anos passam, e somos apresentados ao jovem Szeto, cujo maior sonho é casar com a namoradinha chinesa. O destino desses dois é tragicamente modificado numa estação de trens em Xangai, durante uma ação terrorista. Szeto é confundido como membro do grupo clandestino “Borboleta Púrpura”, presencia a morte da noiva, é preso e torturado. A outrora inocente Cynthia, acompanha e participa da violenta ação, agora atendendo pelo nome de Ding Hui, uma guerrilheira convicta e fiel a luta de resistência chinesa contra os invasores . Essa seqüência foi minuciosamente construída pelo diretor e servirá de base para todo o restante da trama. No início, o filme nos dá a impressão de ser um maçante melodrama intimista, mas aos poucos a silenciosa narrativa vai ganhando força, tomando forma e ao final somos arremessados a uma conclusão arrebatadora, onde o diretor demonstra um exímio domínio técnico ao retroceder de forma hábil ao início da seqüência-chave do tiroteio, explicando algumas brechas do roteiro e dando lógica ao final apresentado. Mas é uma obra para poucos, repleta de longos silêncios, onde as emoções são contidas e as palavras são substituídas pelos olhares. Um árduo exercício de paciência para alguns, e uma sucessão de belos momentos de contemplação para outros. Uma curiosidade: Zhang Zyiy também é a estrela do recente Memórias de uma Gueixa (2005), que vem sendo duramente criticado tanto pelos japoneses, quanto pelos chineses. Eles ficaram ofendidos pela escalação de atrizes chineses para uma história passada no Japão e falada em inglês (!). Bola fora de uma indústria que parece só olhar para o próprio umbigo. Mas fazer o quê, até hoje os americanos acham que nós falamos espanhol e moramos em ocas indígenas.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A HORA DA VERDADE

Virou moda! Primeiro foi Richard Chamberlain, o antigo Doutor Kildare da TV e famoso mundialmente pela série Pássaros Feridos, que aos 69 anos saiu do armário na sua autobiografia “ Shattered Love” e revelou um casamento de mais de 25 anos com o ator e produtor Martin Rabbett. Agora, outro galã das antigas também resolveu chutar o pau da barraca e suspender o véu da opressão que impera na indústria cinematográfica norte americana. Trata-se de Tab Hunter, o loiro atlético que esteve presente nos sonhos molhados de dez entre dez adolescentes das décadas de 50 e 60. Na sua recente biografia "Tab Hunter Confidential: The Making of a Movie Star" , lançada no final do ano passado nos Estados Unidos, Tab (hoje com 74 anos) não só revela a sua verdadeira identidade sexual, como também dá nome aos bois e revela aguns de seus amantes. Dentre eles, o atormentado Norman Bates das telas e, segundo dizem, também na vida real, Anthony Perkins; o bailarino Rudolf Nureyev e o ator Scott Marlowe, que namorou Natalie Wood. Agora a pergunta que não quer calar: essas revelações tardias seriam um desabafo, uma forma de exorcizar os fantamas do passado e ter uma velhice digna com a consciência limpa, sem medo de nada e de ninguém; ou é mais um, dentre muitos atores falidos, querendo faturar uns trocados às custas de muito sensacionalismo barato?. Fica a dúvida e a vontade de ler a obra, pois somos todos humanos, portadores de virtudes e repleto de defeitos e sentimentos mesquinhhos, como a curiosidade pela vida alheia.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

DISSECANDO UM MÉDICO

O MAL DE SACHS
La Maladie de Sachs. Fra., 1999. De: Michel Deville. Com: Albert Dupontel, Valérie Dréville, Dominique Raymond. OP/DR Visto2003(TV5) 107m
Sinopse/Comentário: Um filme despretensioso e possuidor de uma originalidade absurda. Logo de cara já somos apresentados ao Dr. Bruno Sachs e passamos a acompanhar o seu dia-a-dia como médico de uma pequena vila francesa. Todo o dia a rotina se repete e é filmada meticulosamente: ele acorda cedo, toma banho, prepara o café e vai para o consultório, de onde somente sai quando atende ao último paciente. Ele não tem luxo algum, possuí um carro usado e paga aluguel. Seu único lazer é a leitura e o seu maior prazer é exercer o seu ofício. Um caso raro de um médico solitário, desprovido de luxo e maiores ambições, que leva ao pé da letra o juramento de Hipócrates. Com esse fio de história, a obra poderia se tornar um exercício de paciência e monotonia, mas não é. Tudo por que o diretor dá voz ao pensamento dos pacientes e dos moradores que convivem com Sachs. Cada um analisa e dá o seu ponto de vista sobre o personagem, e nós nos tornamos cúmplices desta aventura subjetiva onde o médico torna-se o alvo de estudo e é dissecado mentalmente pelos pacientes. Os papéis se invertem de forma poucas vezes vista no cinema. No meio da trama, ele se envolve com uma paciente, mas a sua exarcerbada dedicação profissional não diminui. Ao final, como uma espécie de presságio e alerta a todos que abdicam da suas vidas em prol da carreira, o título original do filme é justificado e Sachs passará de médico a paciente. É um final dúbio, pois põe em cheque todo a dedicação do personagem ao longo do filme, mas muito original, como todo o restante da obra. Uma pequena obra prima, que permanece inédita no Brasil e demonstra o fôlego criativo do veterano Deville, um senhor de 74 anos de idade que continua a dirigir ininterruptamente. Ele também escreveu o roteiro e nunca foi devidamente prestigiado na sua terra natal, a França. Tanto que este O Mal de Sachs foi mais visto e premiado na Espanha, onde ganhou os prêmios de melhor roteiro e direção no Festival Internacional de San Sebastián. Também foi eleito o melhor filme no Festival de Chicago e pelo Sindicato dos críticos franceses.

domingo, fevereiro 05, 2006

O IDIOTA, O BRUTO E A LOIRA BURRA

L´ÉTÉ EM PETE DOUCE .
Idem. França, 1987. De: Gerard Krawczyk. Com: Jacques Villeret, Jean-Pierre Bacri, Pauline Lafont, Guy Marchand, Jean Bouise, Claude Chabrol. Visto em 04/02 (TV 5). 102 min
Sinopse
Após a morte da mãe, dois irmãos desajustados são constantemente assediados para vender o velho casarão onde vivem por um vizinho, e se envolvem emocionalmente com a jovem e sexy Lilas, que sonha em casar e virar uma dama respeitável.
Comentário
Mo (Villeret) é um homem gordo, com idade mental de criança, cujo amigo inseparável é um cãozinho vira-lata. Após a morte da mãe, passa a conviver e a receber os cuidados do irmão mais velho Fane (Bacri), um homem rude e marcado pela vida, cujo maior sonho é virar um escritor de sucesso. A rotina dos dois é alterada pela chegada de Lilas (Lafont), uma loira artificial que tem como ícone Marylin Monroe. Ela é amante de Fane, mas se afeiçoa por Mo, com quem também transa. Os três são constantemente incomodados pelo vizinho André Voke (Marchand), dono das duas oficinas localizadas entre o velho casarão dos irmãos, que pretende comprar o imóvel a todo custo, além de transar com a exuberante Lilas. Bem fotografado e conduzido com mão firme pelo diretor Krawczyck, o filme exala ternura por todos os lados e traz uma bela composição do trio central. Villeret nunca exagera a demência do seu Mo, Bacri (antes de casar e formar uma sólida parceria com a atriz e diretora Agnès Jaoui), mescla na dose exata brutalidade e compaixão, mas quem rouba as cenas é a jovem Lafont. Nua em várias cenas, o seu personagem começa ingênua, como todas as loiras burras personificadas por Marylin, e aos poucos vai ganhando força e determinação, chegando ao final como peça chave no desfecho do trama. Infelizmente, a vida real foi cruel demais e Lafont morreu prematuramente no ano seguinte, aos 25 anos, vítima de uma queda acidental. Era filha da famosa atriz Bernadete Lafont e tem aqui o seu melhor momento no cinema. O ator Villeret, que lembra muito o ator alemão Peter Lorre (M, o Vampiro de Duseldorff – 1931), faleceu ano passado em decorrência de problemas de saúde gerados pelo alcoolismo. Duas curiosidades mórbidas dentro de uma obra que celebra a vida, e mostra que por mais difícil que seja se enquadrar ao status quo imposto pelos hipócritas, o ser humano sempre encontra uma saída digna. Atenção para a participação do veterano diretor Claude Chabrol como o pároco local.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

A VOVÓ STONE VEM AÍ!

Pela foto acima, a assassina Catherine Tramell continua de pernas abertas, mas a perseguida foi devidamente coberta. Será que ela irá dar o ar da graça e reviver a cena que catapultou Stone ao estrelato mundial. É esperar para ver, mas as previsões não são das melhores. O diretor já fez vários cortes para reduzir a censura e o galã é o desconhecido ator inglês David Morrissey.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

QUANDO O QUE IMPORTA É O TAMANHO DA ALMA

O AGENTE DA ESTAÇÃO
The Station Agent. EUA, 2003. De: Thomas McCarthy. Com: Peter Dinklage, Patrícia Clarkson, Bobby Cannavale, Michele Williams, Paul Benjamin, Raven Goodwin. Visto Dez/2005 (Cinemax) 88 min
Sinopse/Comentário
Assisti a esse filme há alguns meses e é uma daquelas obras únicas, que deixam marcas indeléveis na memória, seja pela técnica, pelo tema ou vice-versa. Quanto mais falamos sobre ele e o assistimos novamente, mais gostamos. É como um bom livro que deixamos exposto na prateleira para ser aberto, sempre que possível, e novamente saboreado. O filme marca a estréia do pouco conhecido McCarthy, que sempre trabalhou como ator (ele está nos novos filmes de George Clooney: Syriana e Good Night, Good Luck) e trata de um tema bastante raro ao cinema americano atual: a condição humana. O protagonista é um anão que confecciona e conserta miniaturas (genial!), e após a morte do grande amigo e patrão, herda uma velha e desativada estação de trens. Quando chega ao local, ele é obrigado a conviver com várias figuras humanas que entram na sua vida sem pedir licença: a menina negra, que o enxerga como um novo e estranho amigo; a jovem bibliotecária, grávida e abandonada pelo namorado, que nutre uma estranha atração pelo anão; o divertido e expansivo latino dono de um trailer de café; e a artista plástica em forte processo depressivo, causado pela morte do filho único. Com esses dois últimos, ele forma uma fraterna e silenciosa aliança. Tornam-se inseparáveis e passam a ser o alicerce um do outro. Belas composições de todo o elenco, que foi indicado e conquistou vários prêmios da crítica. Patrícia foi a mais prestigiada coadjuvante do ano, chegando ao Oscar por outro desempenho em Pieces of April (2003), e Dinklage entra para história como o mais bem sucedido anão do cinema. Ele tem 1,40 metros de altura, já possui 24 filmes no currículo, está com 33 anos e pelo papel no Agente da Estação foi indicado como melhor ator nos respeitados SAG AWARDS e INDEPENDENT SPIRIT AWARDS. Uma curiosidade: ele atuou como dublê em 1997, na ótima serie Oz – A Vida é uma Prisão. O galã Cannavale ficou famoso pela série Will & Grace, onde interpretava o namorado do protagonista gay e foi casado coma filha do renomado diretor Sidney Lumet. Michelle Williams veio da série Dawson´s Creek e está no prestigiado Brokeback Montain (2005) de Ang Lee. Para finalizar, tenho que destacar a hilária cena do personagem principal, quando este vai fazer compras num pequeno mercado e é fotografado, sem discrição alguma, pela dona do local. É um momento explícito de como alguns seres humanos de estatura normal, conseguem ser mais “baixos” do que os anões.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

UM SENTIMENTO UNIVERSAL

DELICADA RELAÇÃO
Yossi & Jagger. Israel, 2002. De: Eytan Fox. Com:Ohad Knoller,Yehuda Levi,Assi Cohen, Aya Steinovitz, Hani Furstenberg,Sharon Raginiano, Yaniv Moyal, Hanan Savyon,Erez Kahana. 65 min
Sinopse: Uma base militar localizada na fronteira de Israel com o Líbano abriga jovens soldados, homens e mulheres. Yossi (Ohad Knoller) é o comandante do grupo, um homem duro que mantém a todo custo sua postura rígida e a fama de mau. Jagger (Yehuda Levi), o segundo na hierarquia do quartel, tem uma personalidade mais sensível, apesar de também encarar seu trabalho com seriedade. Uma vez juntos, os dois militares vivem uma história de amor proibida que tentam esconder dos demais membros da tropa a todo custo. No entanto, o esforço fica ameaçado quando a recruta Yaeli (Aya Steinovitz) se declara apaixonada por Jagger
Comentário
Acima de raça, credo ou sexo, este é um filme de amor. Amor universal, que acomete jovens, velhos, pretos, brancos, homens, mulheres e todos aqueles abertos ao frescor deste sentimento que deixa leve a alma e faz pulsar mais forte o coração. Yossi é o comandante de um pequeno batalhão das forças armadas israelenses, alocado numa base situada na fronteira de Israel como o Líbano. Sério e concentrado nas tarefas, ele só baixa a guarda quando está ao lado do seu subordinado direto, Lior. Este, por sua vez, é calmo, alegre e destemido, apelidado pelos colegas de Jagger, por ser belo e admirado como uma estrela de rock do porte de um Mick Jagger. Quando está sozinho, ao lado de Yossi, ele vira uma criança. Tendo como cenário as gélidas montanhas rochosas e como testemunhas pequenos animais, eles largam as armas, esquecem as fardas e revelam-se amantes. Numa relação que não ousa dizer seu nome e resume-se aos poucos e rápidos momentos em que os dois conseguem ficar a sós. Quando retornam a base militar, engolem o sentimento e sufocam o amor dentro do peito. Mas esquecem do olhar. Ah, o olhar! Capaz de revelar mais do que mil palavras seriam capazes de expressar. Mas mesmo com tanto sinais, os demais colegas estão mais preocupados em salvar os próprios umbigos e enxergam a relação do dois como uma amizade fraternal. Aliás, o filme tem início com uma bela metáfora: os militares, animados, cavam uma cova para enterrar a comida que apodreceu, como se colocassem a sujeira para baixo do tapete, escondendo a realidade dos fatos, assim como Yossi esconde o seu amor por Jagger.
Mas, eis que surge a mulher. Aliás, duas mulheres. São recrutas que também estão a serviço do exército. Uma é amante do coronel e exala sexo pelos poros. A outra é romântica e angelical, e está decidida a declarar o amor platônico que nutre por Jagger. Ela o acha diferente dos demais e sente-se atraída por isso, enquanto é admirada a distância por outro recruta, o sargento Ophyr. Decidida, vai pedir ajuda a Yossi, o suposto melhor amigo do alvo de sua paixão. Este sorri ,fica sem graça e parte para uma inesperada emboscada exigida pelo carrancudo Coronel. Antes, os amantes discutem. Jagger quer abandonar tudo e viver abertamente o seu amor, mas Yossi prefere o mundo das aparências ao invés da realidade da paixão. Enfrentar as bombas dos inimigos é mais fácil do que fugir dos olhos de desprezo dos colegas de corporação. E é justamente uma bomba, durante a emboscada, que tira a vida do seu amado Jagger. Essa cena é comovente e revela o sentimento profundo que unia esses dois.
Após o enterro, na casa dos pais de Jagger, a mãe e a recruta apaixonada conversam e chegam a triste conclusão que não conheciam os gostos e as preferências do jovem, quando são interpeladas por Yossi, que enche o peito e cita o nome da música preferida do rapaz. Um forte sentimento de alívio e contentamento percorre o seu ser, ele sorri discretamente. Naquele instante, teve a certeza que foi a pessoa mais importante na curta vida do belo e doce Jagger. Um belo final, para um filme curto (65 min), feito com câmera digital e muito bem interpretado por um elenco jovem e bonito.
O diretor é nascido em Nova York, mas foi viver aos dois anos de idade em Israel por circunstâncias familiares, e logo depois dirigiu outro projeto com temática gay, o filme Walk on Water (2004). Yossi & Jagger recebeu seis prêmios internacionais e foi sucesso de público e crítica no Brasil.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O DEFENSOR DE PORCOS

A HORA DO PORCO
The Hour of the Pig(título alternativo The Advocate). Ingl., 1993. De: Leslie Megahey. Com: Colin Firth, Ian Holm, Nicol Willianson, Amina Annabi, Donald Pleasence, Michael Gough, Harriet Walter, Lysette Anthony. OP-14/DR. Visto 22/01 (Band) 117 min
Sinopse
Na França, em plena Idade Média, os animais também eram acusados,julgados e condenados como autores de crimes, assim como os seres humanos. Neste contexto histórico, um jovem promotor enfrenta conflitos éticos e morais ao ter que defender um porco, acusado de matar um garoto judeu.
Comentários
Existem documentações que comprovam mais de 90 casos de animais levados aos tribunais sob a acusação dos mais diversos delitos, entre a segunda metade do século XIV e o início do século XV. Esta prática comum na era medieval, pouquíssimas vezes foi abordada e torna esse filme único e original. A primeira cena é hilária e resume bem o espírito da obra. Um homem seminu e uma jumenta, colocados lado a lado, com a corda no pescoço, diante de uma platéia ávida e acostumada com o espetáculo do enforcamento, recebem a sentença. O homem,foi condenado pelo fato de ter violado a jumenta, algumas galinhas, duas ovelhas. A jumenta, por ter se entregue aos prazeres da luxúria, sem criar barreiras ou objeções. Os rituais vão começar quando,de repente, tudo para. Um soldado traz, por escrito, o perdão do rei. O homem, aliviado, sorri. Triste engano, a absolvição é para o animal. A platéia aplaude. A jumentinha volta para casa e o homem morre pendurado pelo pescoço. Após essa introdução, somos apresentados ao protagonista, um jovem e idealista advogado de defesa (Firth, antes de virar o namoradinho de Bridget Jones) que chega a uma vila no interior da França e se depara com miséria, violência e um sistema judicial totalmente corrompido pela nobreza local, cujo maior expoente é o senhor Jehan D´Auferre (Nicol Willianson). Torna-se amigo do pároco local (Sir Ian Holm), cujo passatempo predileto é transar com mulheres casadas, e se envolve emocionalmente com uma imigrante egípcia (a tunisiana Annabi), vítima da pobreza e do preconceito racial. Passa a atender vários clientes, até ser obrigado a defender um porco, pertencente a egípcia, que supostamente teria assassinado um garoto judeu. No decorrer do processo, será ameaçado e descobrirá que o animal é um mero pretexto para esconder o verdadeiro criminoso, que se esconde sob os véus da riqueza e do poder. O filme termina com a chegada da peste negra, responsável pela morte de milhões de pessoas e o extermínio de cidades inteira. A doença chega a cavalo, na metafórica figura do poderoso cavaleiro medieval, que esconde por baixo da armadura reluzente as feridas feias e dolorosas da peste que se anuncia. A morte vem a cavalo e encanta a todos pela irresistível beleza. O filme é bem feito, com ótima direção de arte e belos figurinos, mas resulta lento em certos momentos. Talvez com 20 minutos a menos ficasse melhor, mas como está já vale a pena.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

EM BUSCA DA PRÓPRIA EXISTÊNCIA

FILME DEMÊNCIA
Idem, Brasil,1986. De: Carlos Reichenbach. Com: Ênio Gonçalves, Emilio Di Biasi, Imara Reis, Fernando Benini, Alvamar Taddei, Vanessa, Renato Máster, Roberto Miranda, Rosa Maria Pestana, Orlando Parolinni. A/DR. Visto em 15/01 (CineBrasil TV). 90 min.
Sinopse
Um pequeno industrial de cigarros, falido economicamente e em crise doméstica, sai de casa e passa a refugiar-se nas visões sobre um suposto paraíso. Na busca pelo idealizado Éden, cruza com vários personagens: o amigo malandro, a amante, prostitutas, cafetões e outras figuras estranhas.Como na lenda de Fausto, passa a ter alucinações com Mefisto, que durante a história lhe aparecerá de várias formas, ora como traficante noturno, ora como uma cândida velhinha, ou como um louco mendigo
Comentário
Reichenbach é um caso único dentro da cinematografia brasileira. Enquanto o cinema novo teve como berço o Rio de Janeiro e como condutores os jovens cineastas que se instalavam na terra da garota de IPANEMA, nascidos no próprio Rio e/ou vindos de outras regiões brasileiras, Carlão (apelido carinhoso e proporcional aos quase dois metros de altura) e seus amigos instalaram as bases do novo cinema paulista que surgia no final dos anos 60. Sem compromisso algum com ideais políticos e sem ajuda de órgãos públicos como a Embrafilme, desenvolveram um cinema autoral livre e jovem, bancado pela iniciativa privada nacional e com forte apelo popular. Acompanhando a evolução dos costumes sociais e pegando carona na revolução sexual, as produções começaram a ficar mais apimentadas e o público ,cada vez mais curioso e excitado, comparecia em massa as salas de exibição. Amparados por histórias divertidas, baseadas nas chanchadas produzidas nos anos cinqüenta, e com pitadas de sexo e muita, mais muita mulher pelada, os filmes paulistas inauguraram um dos gêneros mais rentáveis do cinema nacional: as pornochanchadas .Foi um período profícuo, onde até os cariocas pegaram carona na novidade e muitos expoentes do “cinema novo” tiveram que incluir mais sexo nas suas obras. Apesar da forte censura imposta pelo regime militar, os cineastas produziam sem parar e só foram barrados pelo advento dos videocassetes e das baratas produções com sexo explícito. Alguns tiveram que usar pseudônimos e aderir a nova moda erótica, colocando no mercado títulos toscos e de mau gosto como “Senta no meu, que eu entro na tua”, “Oh, rebuceteio!”, “Como afogar o ganso” e daí para baixo. Mas o grande golpe veio anos depois, com a sumária extinção da Embrafilme pelo Governo Collor. Era o fim de qualquer resquício de produção nacional, que levaria anos para se recuperar e iniciar uma nova e gloriosa fase, com obras do quilate de Central do Brasil e Cidade de Deus. Mantendo-se a margem,,Carlão conseguiu o feito notável de filmar ininterruptamente até os dias de hoje e nunca ter feito concessões comerciais dentro das suas obras. É verdade que fazia uso de títulos com apelo erótico como “A Ilha dos Prazeres Proibidos” e “Império do Desejo”, mas nunca perdeu o foco na construção de roteiros instigantes e na elaborada parte técnica de seus filmes. É um excelente e premiado diretor de fotografia e ganhou uns trocados na época dos explícitos trabalhando nessa área no filme de amigos. Foi favorecido pelo fato só ter usado o dinheiro público uma única vez dentro da suas extensa filmografia. Isso ocorreu na elaboração da sua obra mais pessoal e hermética: Filme Demência. Com um roteiro que mescla dados biográficos(o diretor é filho e neto de industriais) e muita filosofia (vemos na tela frases de Goethe, e várias referências a Murnau e outros cineastas), é uma adaptação muito pessoal da lenda de Fausto, que vende a alma a Mephisto em troca do suposto paraíso. O Fausto de Reichenbach é um industrial falido que sai pelas ruas noturnas de São Paulo tentando compreender a própria existência, e é perseguido por um Mefisto detentor de várias personalidades (mendigo,velhinha) e atormentado pelas visões de uma praia e de uma menina misteriosa. É um exercício lingüística que irá fascinar alguns e irritar outros, mas é inegável o seu valor. Por falta de recursos(na época a Embrafilme já passava por dificuldades), a filmagem foi interrompida três vezes e só foi concluída graças a persistência do diretor e dos atores centrais: Ênio Gonçalves, como um atormentado Fausto, e Emilio Di Biasi, no papel do travestido Mephisto. Ame-o ou deixe-o. Premiações:Festival de Gramado: Melhor Diretor (Carlos Reichenbach), Melhor Ator Coadjuvante (Emílio Di Biasi), Melhor Atriz Coadjuvante (Imara Reis), Melhor Montagem (Eder Mazini) e Prêmio da Crítica (Melhor Filme)* 3º Rio Cine Festival: Melhor Ator (Ênio Gonçalves) e Melhor Trilha Sonora (Manoel Paiva & Luiz Chagas)* Troféu Macunaíma - Federação Nacional de Cine-Clubes (melhor filme de 86) Festivais Internacionais Rotterdam, Salssomagiore, Montreal, Edinburg, Ghent, etc.* Votado no Festival de Rotterdam para o prêmio de "filme inovador do ano".