quarta-feira, junho 20, 2007

PURPURINA PURA....

20 CENTÍMETROS
20 Centimetri. Esp., 2005. De: Ramón Salazar. Com: Mônica Cervera, Pablo Puyol, Miguel O´Dogherty, Concha Galán, Lola Dueñas, Juan Sanz, Najwa Ninri, Rossy De Palma, Pilar Bardem. A/M.112 min. Comentário:
Só mesmo um conterrâneo de Pedro Almodóvar para conceber este delírio musical homo-erótico, impregnado de luzes, cores, muito humor e uma pitada de drama. Em seu segundo longa, o jovem Ramon Salazar demonstra fôlego de veterano ao narrar com extrema competência técnica e apurado estilo visual a história cheia de sonhos e desilusões de Marieta, jovem travesti madrilenho que deseja acabar de uma vez por todas com a incômoda herança familiar: um membro fálico de 20 centímetros! O que seria motivo de orgulho para muitos homens e objeto de disputa entre as mulheres, transforma-se num pesadelo diário para um homem com alma feminina, que sobrevive vendendo o próprio corpo nas ruas de Madri e sofre com as crises constantes de narcolepsia, distúrbio que lhe promove o sono profundo e o deixa dormindo nas horas mais inusitadas. Invariavelmente, Marieta é encontrada desfalecida e abandonada nas sarjetas, com as roupas rasgadas e sem saber muito bem o que aconteceu. Só lhe cabe recolher o pouco de dignidade que ainda resta e voltar para o pequeno apartamento de subúrbio que compartilha com Tomás, anão e melhor amigo que vive envolvido em pequenos golpes e que sonha torna-se músico. Ao redor dos dois, uma fauna urbana repleta de tipos esquisitos, onde se destacam a vizinha gorda e mãe de um garoto mulato, e o másculo repositor de verduras da feira livre que passa a freqüentar os sonhos eróticos do travesti, mas logo o decepciona ao demonstra ser passivo durante o sexo.
O ponto alto do longa, são os caprichados números musicais encenados durante os surtos inesperados de sono da protagonista, onde a fantasia corre solta e ela vê-se como uma glamurosa estrela hollywoodiana em meio a cenários inusitados e coloridos, onde amigos e clientes viram personagens da ação, dançando e cantando como profissionais. Fazendo uso do mesmo recurso consagrado pelo australiano Bazz Luhman no genial “Moulin Rouge”, o diretor usa e abusa de canções pops consagradas nas vozes de Madonna, Freddie Mercury e outros para emoldurar as coreografias, gerando empatia imediata e transformando-as em números dignos da Broadway .Outro grande achado é a interpretação agridoce da notável Mônica Cervera, estrela dos primeiros trabalhos do diretor (o curta “Hongos” e o longa “Piedras”). Detentora de uma figura esguia e estranha que lembra muito a musa almodovariana Rossy De Palma, homenageada aqui numa pequena ponta como uma colega de rua de Marieta. Também merece destaque a corajosa composição do galã Pablo Puyol, como o amante passivo de Marieta, viciado em sexo anal. Uma fita despojada, colorida e extremamente bem conduzida. Infelizmente, os mais puritanos ficarão chocados com algumas liberdades e ousadias, mas são detalhes necessários ao tema e só tornam o resultado final mais divertido e saboroso

sábado, junho 16, 2007

TAXIDERMIA

Três histórias, três épocas e três gerações. Avó, pai e filho tendo como cenário a ascensão e queda do comunismo na Hungria. O primeiro trabalha como capataz na fazenda de um militar em pleno inverno e tenta sublimar os seus desejos carnais, mergulhando num mundo de fantasias, onde a realidade funde-se com a ilusão e o resultado é imprevisível. O segundo é fruto do adultério da mulher do patrão com o capataz e desde bebê chama a atenção por ter nascido com uma deformidade genética que provocou uma protuberância ao final da coluna, que faz lembrar um rabo suíno. Comilão desde criança, torna-se campeão num esporte mórbido onde os competidores (todos obesos) comem até vomitar (!). O terceiro é taxidermista e tenta dividir-se entre o trabalho extenuante que consiste em preservar as características físicas de animais mortos através de metódos científicos e os cuidados com o pai, que ficou imóvel e grotesco devido ao excesso de peso.
Através dos três personagens, acompanhamos flashes da história da própria Hungria, já que o longa começa na Primeira Guerra Mundial, adentra os anos de chumbo do regime comunista e chega aos dias atuais sem fazer concessões de nenhuma ordem. Caprichando na estética visual e no realismo gráfico de algumas cenas, capazes de revirar o estômago e colocar para correr os espectadores mais sensíveis, o diretor Pálfi propõe um jogo fascinante que coloca em cena temas complexos e vitais aos seres humanos como o sexo, a comida e a morte. Por estar dividido estruturalmente entre esses três ciclos, “Taxidermia” foi comparado por alguns críticos ao filme “Saló” do mestre Píer Paolo Pasolini. Comparação essa totalmente inócua, já que o segundo é uma das mais duras e cruéis críticas ao nazismo já feitas e considerado o filme mais transgressor de todos os tempos, tendo sido banido em vários países à época de seu lançamento.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor em parceria com a esposa Ruttkay, é baseado nos trabalhos do escritor húngaro Parti Nagy Lajos e impregnado de uma fina ironia, presente até nos momento mais mórbidos e olha que não são poucos. Durante toda a trama somos desafiados por cenas desconcertantes e ao mesmo tempo necessárias ao contexto tratado. Logo de início, um pênis ereto e flamejante serve de metáfora ao desejo reprimido; em seguida, o vômito constante dos personagens indicam que os excessos (independente do que sejam) nunca trazem felicidade e causam dependência; e, por último, o volume de sangue e vísceras revelam a fragilidade humana diante da morte.
Um belo e forte tratado em celulóide sobre a vida e a morte, que só peca pela falta de consistência do roteiro ao tentar ligar as três histórias, já que a primeira fica destoante se comparada as outras duas, que apresentam uma seqüência lógica ao manter a figura do pai obeso como ponte narrativa, enquanto que os personagens do primeiro segmento somem totalmente na trama seguinte. Mas o resultado final é realmente instigante e inovador. Uma curiosidade: a trilha sonora é assinada por Amon Tobin, que nasceu no Rio de Janeiro e pratica o trip-hop.
Taxidermia - Der Ausstopfer. Hung./Áustria/França, 2006. De: György Pálfi. Com: Csaba Czene, Gergely Trócsányi, Marc Bischoff, Adél Stanczel, Piroska Molnár. 91 min.

quarta-feira, junho 13, 2007

TAKE OFF

Antes de tudo, quero ressaltar que o objetivo deste blog é falar sobre cinema, independente do gênero, país de origem e duração. Portanto, as obras pornôs de qualidade que incrementaram os sonhos molhados de muita gente (principalmente nos áureos anos 70) também serão bem-vindas. É o caso de TAKE OFF (EUA, 1978), uma feliz adaptação da obra clássica “O Retrato de Dorian Grey” de Oscar Wilde, produzida na época de ouro do pornô americano. Contando com o inteligente roteiro de Daria Price e a competente direção de Armand Weston (que dirigiu apenas oito filmes e é responsável pelo clássico do gênero “A Defiance of God” de 1975), acompanhamos dos anos 30 até o final dos anos 70, as várias aventuras sexuais do playboy Darrin Blue, que misteriosamente permanece jovem, enquanto a sua imagem num antigo filme de 8mm sofre o desgaste do tempo. O seu destino começa a mudar quando um casal descobre o antigo filme e a mulher começa a desconfiar que homem belo e sedutor que conheceu a beira da piscina é mesmo homem do filme.
Eficente reconstituição de época, elenco repleto de beldades que vão desde a veterana Georgina Spelvin (a inesquecível Miss Jones) até a linda Annette Haven, com direito a luxuosa ponta do travesti Holly Woodlawn (estrela do filme TRASH e amiga pessoal de Andy Warhol) como uma cantora de cabaret no segmento relativo aos anos 40. Enfim, um filme pornô de muita classe.
O papel principal é vivido pelo ator Wade Nichols, um caso a parte dentro da indústria pornô. Considerado um dos mais belos atores do gênero, Nichols tinha penetrantes olhos azuis e um típo físico próprio dos nos setenta, com direito a peito cabeludo e um indefectível bigode. Ele começou a carreira no início dos anos setenta em fitas gays e logo passou ao cinema “straight”, ou seja, filmes heterossexuais onde transava com mulheres. Rapidamente alcançou o estrelado no meio e teve o seu grande momento com “Take Off”. Paralelo a carreira cinematografica, ele gravou um LP com o nome de Dennis Parker e estourou nas pistas de dança no final dos nos 70, com hits como “Like an eagle” e “I´m A Dancer”. Esta segunda música fez parte da trilha sonora da novela Marrom Glacê e o ator esteve no Brasil para promovê-la em 1979. Neste mesmo ano, a sua carreira deu uma guinada de 180 graus e ele conseguiu um papel fixo na telessérie de sucesso “The Edge of Night” da poderosa Rede ABC, onde viveu o Chefe de Polícia Derek Mallory de 79 até 84. Infelizmente, o ator morreu no dia 28 de janeiro de 1985. Em algumas publicações, a causa mortis alegada é que uma séria de complicações decorrentes da AIDS ocasionou o óbito, em outras fontes a informação é que o astro teria cometido suicídio ao tomar conhecimento que era portador do vírus. Polêmicas a parte, Wade Nichols permanece imortal nos filmes e nas alegres canções que marcaram a era disco.

UM CINEMA SEM CONCESSÕES

O cinema de Fernado Arrabal não é para ser compreendido, mas sim apreciado. Dramaturgo, amante das artes e discípulo de Salvador Dali, ele consegue transpor para a tela do cinema argumentos absurdos e cenas desconcertantes que prendem a atenção desde o primeiro frame e fazem juz as pinturas consagradas pelo mestre do surrealismo. É arte pura em película.
No seu segundo longa-metragem como diretor J´IRAI COMME UM CHEVAL FOU(1973), ele conseguiu a proeza de ser censurado na liberal França e ter causado polêmica e mal-estar nos poucos países onde foi exibido. A obra acompanha a desconcertante via-crucis vivida do playboy Aden Rey (vivido pelo norte americano George Shannon), que inicia a trama peregrinando sem rumo pelo deserto, como se fugisse de algo. Na verdade, ele matou a própria mãe (afrancesa EmannelleRiva, estrela do clássico Hiroshima Mon Amour), com quem mantinha uma forte relação edipiana. Desamparado e perdido na aridez de uma paisagem morta, ele encontra na solitária figura do pigmeu Marvel, o amor e a afeição da mãe morta, iniciando uma estranha relação homo-erótica, mais insinuada do que explicitada. Totalmente dependendente do pequeno homem, Aden o leva para a cidade grande, onde a pureza do selvagem é engolida pela crueldade das pessoas e pela frieza da metrópole. Perdido, Marvel foge para o seu habitat natural, tendo Aden em seu encalço. O reecontro do dois é inevitável e traz consequências trágicas pois resulta na morte do playboy a pauladas, executada pelo pigmeu que em seguida come a carne do rapaz, numa forte sequência que funciona como metáfora da união eterna daqueles dois seres tão diferentes e ao mesmo tempo tão dependentes, unidos para sempre numa simbiose perfeita de corpo e mente.
Os mais sensíveis ficarão chocados com as imagens fortes jogadas na tela sem concessão alguma. São vísceras expostas, membros eretos, pessoas urinando e defecando, um travesti desnudo com a genitália a mostra e várias outras leviandades, mescladas com cenas impregnadas de beleza e plasticidade cênica. A trama não é contada de forma linear, mas o objetivo é esse mesmo: confundir mais do que explicar e soltar pistas durante toda a projeção sobre acontecimentos passados e futuros, apoiados em metáforas poderosas. Instigante, ousado, obsceno, violento, enfim um coquetel de emoções díspares de difícil, porém saborosa ingestão.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A JUSTIÇA TARDA, MAS NÃO FALHA

Surpresas? Algumas, mas nada de extraordinário. A cerimônia de número 79 do prêmio mais cobiçado do planeta foi marcada pelo esmero técnico, o humor refinado e um forte apelo pelo politicamente correto. O Oscar é um jogo de cartas marcadas, onde os premiados já são antecipadamente estabelecidos pelos prêmios dos sindicatos de classe e pelo forte lobby dos estúdios, além da incômoda imparcialidade de parte da crítica especializada que não faz cerimônia alguma ao alardear os seus favoritos e menosprezar os demais concorrentes.
A maioria dos sindicatos é composta por votantes da Academia e comumente os resultados coincidem, principalmente em quesitos técnicos como direção de arte, fotografia, som e montagem. Basta uma consulta rápida a esses resultados horas antes do evento para fazer bonito nos inúmeros bolões que proliferam por aí, facilitados pela agilidade da internet. Como toda regra tem a sua exceção, este ano tivemos duas discrepâncias gritantes: no quesito fotografia o ganhador do sindicato e franco favorito era Emmanuel Lubezki por “Filhos da Esperança”, mas quem ganhou foi Guillermo Navarro por “O Labirinto do Fauno”; enquanto que o riquíssimo figurino do filme chinês “Curse of the Golden Flower “, perdeu para o de “Maria Antonieta” (a incursão malfadada de Sophia Coppola pela vida da nobre francesa), até então ignorado pelo sindicato.
No tópico interpretação, quase não houve surpresas com a rainha de Helen Mirren consolidando a barbada do ano, Forest Whitaker confirmando o favoritismo e Jennifer Hudson (melhor coadjuvante) provando ser a melhor coisa de “Dreamgirls”, que surgiu como filme do ano e foi perdendo espaço desde o dia das indicações, quando ficou fora das categorias de Filme e Direção. Quanto a Eddie Murphy, a sua derrota para o veterano Alan Arkin (“Pequena Miss Sunshine”), não foi surpresa para quem esteve em Los Angeles nos últimos dias. Apesar de fortalecido pelas vitórias no Globo de Ouro e no SAG Awards, o astro teve a sua campanha prejudicada pelo lançamento de seu último filme, a comédia “Norbit” onde Eddie interpreta uma mulher gorda e asquerosa. A mega exposição do ator travestido em imensos outdoors pegou mal junto aos conservadores membros da Academia, formada em sua maioria por senhores e senhoras de idade avançada que não admitem certas ousadias.
Por falar em ousadias, esses mesmos membros que esnobaram no ano passado os cowboys gays de “O Segredo De Brokeback Montain” e deram o prêmio de melhor filme a “Crash”, tiveram que engolir a seco o primeiro beijo lésbico da cerimônia. A cantora Mellissa Etheridge, assumidamente lésbica, ao receber o prêmio de melhor canção pelo documentário “Uma Verdade Inconveniente”, beijou na boca a companheira e, para não deixar dúvida alguma, usou o microfone para agradecer a “mulher” pelo apoio dado e pelos quatro filhos maravilhosos (!). Tal atitude só corroborou a aura liberal da noite, comandada pela comediante (e também lésbica) Ellen De Generis que, de forma discreta e sarcástica, soltou inúmeras piadas de dupla sentido e contou com a presença da namorada , a linda atriz Portia De Rossi, na platéia.
No geral, foi uma festa divertida, onde os melhores momentos ficaram a cargo de um coral que representou os ruídos e sons necessários a confecção de um longa-metragem, e as pequenas e geniais inserções de um ballet performático, que usando a sombra dos bailarinos concebeu cenas de alguns dos filmes indicados.
A mais do que merecida homenagem a Ennio Morricone foi outro momento mágico e mostrou ao mundo um pouco do talento absurdo deste compositor italiano, responsável pela trilha sonora de mais de 500 filmes (!). E olha que ele está firme e forte aos 79 anos de idade.
Por fim, a premiação terminou com a esperada correção de uma das maiores injustiças de sua história. Quando o trio formado por George Lucas, Francis Ford Coppola e Steven Spilberg adentrou o palco do luxuoso Kodak Theather com o envelope que revelaria ao mundo o melhor diretor do ano, já se previa o nome a ser anunciado. Dito e Feito. Sorridente e com o humor que lhe é peculiar, Martin Scorsese vibrou como um iniciante e até pediu aos amigos que confirmassem se era mesmo o seu nome estampado naquele papel. De quebra, ainda viu o seu filme ser eleito o melhor do ano, botando na oficina a kombi velha de “Pequena Miss Sunshine” e na geladeira o caldeirão multi cultural proposto por “Babel”. Aliás, este último talvez tenha sido o maior derrotado da noite, ganhando apenas o Oscar de melhor trilha-sonora.
A seguir, a lista completa dos premiados:

Melhor filme: "Os Infiltrados"Melhor diretor: Martin Scorsese ("Os Infiltrados")Melhor ator: Forest Whitaker ("O Último Rei da Escócia")Melhor atriz: Helen Mirren ("A Rainha")Melhor ator coadjuvante: Alan Arkin ("Pequena Miss Sunshine")Melhor atriz coadjuvante: Jennifer Hudson ("Dreamgirls - Em Busca de um Sonho")Melhor filme estrangeiro: "A Vida dos Outros" (Alemanha)Melhor filme de animação: "Happy Feet: o Pingüim"Roteiro adaptado: "Os Infiltrados" (William Monahan)Roteiro original: "Pequena Miss Sunshine"Direção de Arte: "O Labirinto do Fauno"Fotografia: "O Labirinto do Fauno" (Guillermo Navarro)Figurino: "Maria Antonieta"Melhor documentário: "Uma Verdade Inconveniente"Melhor documentário de curta-metragem: "The Blood of Yingzhou District"Montagem: "Os Infiltrados"Maquiagem: "O Labirinto do Fauno"Trilha Sonora Original: "Babel" (Gustavo Santaolalla)Canção original: "I Need to Wake up" ("Uma verdade inconveniente")Melhor curta-metragem de animação: "The Danish Poet"Melhor curta-metragem: "West Bank Story"Edição de som: "Cartas de Iwo Jima"Som: "Dreamgirls - Em Busca de um Sonho"Efeitos Visuais: "Piratas do Caribe: O Baú da Morte"

sábado, dezembro 02, 2006

A NOIVA DE LÁZARO

Com poucos recursos, câmera na mão e tendo como força motriz a estupenda atuação de Cláudia Rojas, o diretor Fernando Merinero desenvolveu uma pequena obra-prima impregnada de realismo e sensibilidade. Rodado na ruas de Madri, tendo os transeuntes como figurantes e cenários reais como locação, o filme aborda os percalços vividos pelos imigrantes cubanos em países cosmopolitas e de mesma língua como a Espanha. No caso específico da trama, somos inseridos de imediato no dia-a-dia de incertezas e pequenos golpes do cubano Lázaro, homem simples e cheio de sonhos que gasta o pouco do que tem com drogas para aplacar a dura realidade e a falta de perspectivas na qual está inserido. Num ímpeto de loucura e desespero, ele ataca uma rica espanhola em busca de sexo e dinheiro e é preso em flagrante. Condenado, vai para a cadeia no mesmo dia em que Dolores, a sua noiva, chega a Madri. Perdida, indefesa e sem recursos, a jovem cubana é acolhida por uma desconhecida e inicia uma busca desesperada para obter pistas sobre o paradeiro do amado. Ao localizá-lo, fica chocada com o motivo da prisão, mas é capaz de sublimar a dor e levar cocaína na vagina para alimentar o vício do rapaz. Durante uma visita íntima, Dolores é violentada física e psicologicamente pelo namorado e desiste do intuito de recuperá-lo, iniciando uma solitária e difícil luta pela sobrevivência na selva de concreto espanhola. Depois de pequenos bicos, um romance fortuito com outra mulher e um rosário extenso composto de prostituição, drogas e humilhações, a jovem finalmente encontra a redenção nos braços de Paco, artesão de poucas palavras, com quem vai viver e trabalhar. Mas a vida não é um mar de rosas, e Lázaro sai da prisão com a meta de reencontrar a noiva. Casualmente, os dois se deparam em plena rua madrilenha, enfeitada com luzes e coress devido a uma festa religiosa, e o furor sexual é instantâneo, descambando para uma transa explícita em meio ao breu de uma praça abandonada. Apesar da tentação, Dolores agora é uma mulher vivida e resiste aos apelos eróticos do antigo noivo. Sem maiores dúvidas ou questionamentos, ela retorna para a visa segura ao lado de Paco e reescreve o seu inevitável destino de imigrante ilegal, terminando o filme rodeada pelo amor do marido e de uma filha, fruto dessa relação. Quanto a Lázaro, ele retorna às ruas e a sua rotina de homem largado, solitário e drogado que sobrevive graças a caridade de quem lhe detesta. Ousado, visceral e perturbador, “A Noiva de Lázaro” permanece na memória e deixa marcas indeléveis em que se atreve a assisti-lo.

terça-feira, setembro 12, 2006

VER PARA CRER

Se A DAMA NA ÁGUA de M Night Shyamalan é ou não é um grande filme ainda não sei, pois não assisti. Mas desde já podemos considerá-lo a maior polêmica cinematográfica dos últimos anos, haja vista a quantidade de opiniões e críticas divergentes sobre a obra. Alguns a consideram uma obra-prima moderna, onde a fantasia se sobrepõe a realidade de forma magistral numa espécie de contos de fadas dark. Outros já são mais radicais e acham que essa nova incursão de Shyamalan no mundo da ficção resultou num filme mal feito, mal concebido e arrogante, como o próprio diretor que reservou para si mesmo o papel de um escritor que no desenrolar da trama transforma-se numa espécie de novo messias(!).
Será que essa birra da crítica especializada é uma revolta velada contra o personagem do crítico de cinema antipático e pretensioso da trama, que termina sendo o único personagem devorado por um monstro? Ou será que Shyamalan realmente exagerou na dose e afundou na própria pretensão? Essa resposta só teremos vendo a obra, pois as críticas que tem surgido aos borbotões tanto na Internet quanto nas revistas especializadas não servem como baliza, já que vão da paixão escancarada e incondicional à obra até o ódio mortal contra Shyamalan e sua trupe. Nestes momentos, vale lembrar que A VILA na época de seu lançamento foi altamente questionado e hoje faz parte da lista de grandes filmes de muitos críticos de renome por aí. É ver para crer se estamos diante de uma bomba ou de um clássico.

quinta-feira, julho 27, 2006

MAMÃE " BARRA-PESADA"

MINHA MÃE
Ma Mère. Fran./Port./Aust./Esp., 2004. De: Christophe Honoré. Com; Isabelle Huppert, Louis Garrel, Emma De Caunes, Joana Preiss, Jean-Baptiste Montagut, Dominique Reymond, Olivier Raboudin, Philippe Duclos. A/DR. 110 min.
Sinopse:
Baseado no romance póstumo e controverso de Georges Bataille, o filme tem como protagonista o jovem Pierre, um adolescente de 17 anos, que após a morte do pai é introduzido a um mundo hedonista e repleto de depravações pelas mãos de sua atraente mãe.
Comentário:
Trata-se de uma variação moderna e obscena sobre o complexo de Édipo, com a bela e impassível Huppert fazendo às vezes de uma Jocasta ninfomaníaca, alcoólatra e bissexual. Ela interpreta Claire, uma mulher promíscua e casada com um homem mais velho que incentiva as suas aventuras sexuais com outras pessoas. Quando o marido morre num misterioso e nunca explicado acidente, Claire passa a conviver mais intensamente com o filho Pierre, um adolescente cheio de dúvidas e curiosidades sexuais.
A estranha e dúbia relação entre mãe e filho passa a ser o cerne da trama e é desenvolvido de forma confusa, tendo o paradisíaco balneário das Ilhas Canárias como cenário. A principio os dois trocam farpas e aos poucos vão ficando mais íntimos, ao ponto da mãe introduzir o próprio filho nos seus escapistas jogos eróticos. Na verdade, Claire expõe a sua face mais obscena na tentativa de afastar e obter a rejeição do garoto, pois ela sente que Pierre está cada vez mais carente e apaixonado pela sua sensual figura materna. Infelizmente os meios pouco ortodoxos que ela utiliza não funcionam e a narrativa caminha para um sórdido desfecho.
O roteiro é confuso em muitos aspectos e coloca em cena personagens que surgem do nada e ganham uma surpreendente importância, caso da personagem Hansi (vivida pela atriz Ema de Caunes) que entra em cena depois de quase 50 minutos de duração e passa a ser o principal interesse amoroso do jovem Pierre. O personagem de Huppert sai de cena e retorna para um dos finais mais desconcertantes que já assisti: o corpo sem vida de Claire é observado por um atônito Pierre, que começa a se masturbar em pleno necrotério (!). Hard, muito hard, pena que o filme resulte lento e sem sentido em vários momentos.
É o segundo longa de Honoré, mais conhecido como roteirista. Apesar da competente Huppert, com a sua introspecção e os seus expressivos e tristes olhos, o filme é dominado pelo jovem Garrel (filho do diretor Phillipe Garrel) no papel do complexo Pierre, um ator que detém poucos, mas eficientes, recursos dramáticos e que possui uma beleza exótica, explorada na íntegra durante toda a narrativa. Inédito no Brasil.

OS URSOS TAMBÉM AMAM

CACHORRO
Idem. Esp., 2004. De: Miguel Albaladejo. Com: José Luiz Garcia Perez, Dvid Castillo, Empar Ferrer, Elvira Lindo. A/DR . Comentário:
Alberto é um homem acima do peso, na faixa dos trinta e poucos anos, dentista de profissão e homossexual assumido. Devido aos seus atributos físicos, ele participa de um restrito grupo constituído por homens gordos, barbudos e peludos carinhosamente apelidados, no meio gay, de ursos (bear nos EUA e cachorro na Espanha, daí o título original). A sua tranqüila e pacata vida de solteiro, agitada esporadicamente pelos amigos e os amantes de ocasião, é posta a prova quando a única irmã, uma hippie tresloucada, resolve viajar a Índia com o amante e deixa o seu filho sob os cuidados do irmão. Tio e sobrinho tornam-se cúmplices, com o primeiro sempre preservando o segundo de sua vida atípica. Por obra do destino, a mãe é presa por porte de drogas e o dentista terá que lutar pela guarda do garoto com a avó paterna, inimiga declarada da nora.
Usando humor e uma delicadeza ímpar, o diretor desenvolve de forma satisfatória um tema espinhoso e poucas vezes abordado no cinema: a guarda de crianças por homossexuais. Para quebrar o gelo da audiência mais puritana, o filme já mostra ao que veio logo na seqüência de abertura com dois homens gordos transando graficamente. O que vem a seguir é um drama humano e contemporâneo sobre a nova conjuntura social, onde os homossexuais passaram a ser uma parcela economicamente significava da população mundial, com direitos igualitários e os mesmos desejos e anseios de um cidadão comum, apto a constituir uma família. Tratando do tema da paternidade sem levantar bandeira, já que o protagonista não procura ser pai, ele é simplesmente jogado naquela situação por circunstâncias adversas, o diretor evidencia que amor e respeito são sentimentos universais e independem de raça, credo e sexo. No final das contas, o garotinho que parecia ser o personagem mais frágil da trama, demonstra ser uma fortaleza numa cena crucial do longa. Em suma, trata-se de um belo registro de nossa época.

quinta-feira, julho 20, 2006

DIFÍCIL RECOMEÇO

TURBILHÃO
Cavalcade. França, 2005. De: Steve Suissa. Com: Titoff, Berenice Bejo, Laurent Bateau, Axelle Laffont, Marion Cottilard, Ricahard Bohringer, Estelle Lafebure, Vincent Martinez, Buno Todechini, Maria Jurado. L. OP/R. 90 min. Comentário:
Baseado numa história real, o filme do diretor francês Suissa é extremamente bem intencionado ao tentar retratar a tragédia que se abateu sobre a vida do músico Bruno De Stabenhath, mas peca pela direção convencional e pelo roteiro desprovido de um maior aprofundamento. Músico por profissão, playboy por vocação, Bruno sofreu um violento acidente automobilístico e perdeu os movimentos do corpo. Devido a altura da lesão, ficou tetraplégico e iniciou uma batalha inglória para adquirir uma nova vida, com o mínimo de qualidade. Endividado pelos excessos cometidos em noites mal dormidas, farras intermináveis e transas passageiras, ele contará com a solidariedade dos amigos e familiares para recomeçar.
O filme já tem início com Bruno sendo internado e lembrando, em flashbacks, dos dias anteriores ao acidente. Acompanhamos as suas apresentações como DJ, os ensaios e as discussões com os membros de sua banda de rock, somos cúmplices de suas traições, do dia em que foi abandonado pela namorada e do último encontro com a família numa casa a beira amar.
Na segunda metade do longa, acompanhamos o tortuoso tratamento de reabilitação, o convívio com os outros pacientes e uma frustrada tentativa de suicídio. Por fim, ele retorna ao lar e inicia um romance com uma bela jovem chamada Manon, que lhe dá esperanças para recomeçar. Tudo assim. Bem segmentado e burocrático, sem maiores ousadias e nenhuma empatia. A mensagem final de que o amor tudo salva, soa piegas e personagens importantes como os pais de Bruno simplesmente somem da trama, ou fazem uma mera figuração, caso do homem contratado para cuidar do rapaz e que mal aparece.
Em suma, um tema instigante desenvolvido de forma frouxa e superficial. Melhor seria se o diretor centralizasse a trama no período vivido pelo protagonista dentro do Hospital, rodeado por profissionais dedicados e pacientes desequilibrados. Infelizmente, ele opta por desenvolver várias subtramas que nunca chegam ao fim, atrapalhando o cerne da questão que é a reabilitação física e psicológica de um ser humano. No resultado final, salvam-se a boa composição do ator Titoff como Bruno, ele veio da comédia e está perfeito no uso do corpo e nos trejeitos inerentes a um paciente tetraplégico; e a trilha sonora do veterano Michel Legrand, misturando com maestria sintetizadores e instrumentos clássicos. Para finalizar, gostaria de destacar um furo absurdo do roteiro, somente identificável por pessoas do meio médico ou portadores de lesão medular: passados dois meses do acidente, o protagonista se surpreende com um procedimento vital a todo tetraplégico que é o cateterismo vesical. Como o indivíduo perde a sensibilidade do pescoço para baixo e não consegue urinar normalmente, faz-se necessário a introdução periódica de uma sonda no canal peniano para esvaziar a bexiga. Ou seja, desde o primeiro dia de internação o cateterismo é utilizado, tornando-se fundamental à boa recuperação do paciente.
OBS.: A foto acima é do verdadeiro Bruno De Stabenhat

segunda-feira, julho 17, 2006

É PROIBIDO PROIBIR

Foi com muita satisfação que recebi a notícia sobre a reformulação do anacrônico, esdrúxulo e restritivo sistema de classificação etária usada nos cinemas brasileiros, graças a uma liminar do Ministério da Justiça. A partir de amanhã (terça, 18/07), saI o famigerado "Proibido para menores de...” e entra em cena “Recomendado para maiores de...”, bem mais ameno e condizente com os novos tempos.
O que muda efetivamente é que os pais irão determinar o que os seus filhos podem ou não ver nos cinemas, assim como já o fazem no dia a dia em relação a outros assuntos. Assim, um filme recomendado para maiores de 16 anos poderá ser assistido por um jovem de 13 anos, desde que acompanhado pelos pais ou um maior responsável. A classificação anterior só continuará a vigorar para os filmes com cenas fortes de drogas, violência e sexo explícito, que continuarão proibidos para maiores de 18 anos. Ou seja, uma liberdade vigiada, mas muito bem-vinda.
Um sopro de civilidade num país marcado pela desordem civil, moral e ética, onde as crianças menores, devidamente orientadas pelos pais, poderão contar com o abrigo seguro e ilusório dos cinemas. Momentos de fantasia no meio de uma realidade cruel.

sábado, julho 08, 2006

QUANDO O AMOR SUPLANTA O SEXO

LIE WITH ME
Idem. Canadá, 2005. De: Clement Virgo. Com: Lauren Lee Smith, Eric Balfour, Kate Lynch, Polly Shannon, Don Francks, Michael Facciolo. A/DR. 92 min.
Jovem liberada sexualmente, entra em conflito ao se apaixonar por um rapaz já comprometido com outra, que cuida do pai doente nas horas vagas e que deseja iniciar um relacionamento baseado em algo mais do que apenas sexo. Esta produção canadense, por vezes, lembra os filmes do italiano Tinto Brass, repleto de heroínas corpulentas insatisfeitas e ninfomaníacas, mas tem seu o charme próprio. O diretor tenta ilustrar, com as ousadas ações da sua protagonista, a nova postura sexual das mulheres modernas, com práticas que até então eram comuns aos homens, mas reprováveis para a ala feminina, e homens cada vez mais subjugados e confusos com a nova liberalidade feminina. Isso fica evidente nas cenas em que a jovem masturba-se solitariamente diante de um vídeo pornô ou nos seus pensamentos expressos pela voz em off da atriz, que invariavelmente versam sobre a próxima transa e o próximo pau a ser chupado (não se assustem, a linguagem é chula assim mesmo durante toda a trama).
A atriz principal é linda e corajosa, pois participa de cenas explícitas, porém discretas, de sexo oral. O ator Eric Balfour, detentor de uma beleza exótica, foi revelado na série “A Sete Palmos” e é considerado um dos galãs da nova geração de atores americanos. Aqui ele mostra bem mais que o belo rosto.
Apesar de insipiente em alguns momentos, a obra resulta satisfatória e deve muito a sensualidade e empatia do casal central, que conquista o espectador de imediato. Bem mais interessante que muitas produções eróticas ralas e descerebradas que são distribuídas por aí. Filme inédito no Brasil.

quinta-feira, julho 06, 2006

O MEDO DEVORA A ALMA

O MEDO DEVORA A ALMA
Angst essen Seele auf. Alem., 1974. De: Rainer Werner Fassbinder. Com: Brigitte Mira, El Hedi bem Salem, Bárbara Valentin, Irm Herrman, Anita Bucher, Pater Gauhe. OP-14/DR. 93 min.
Para uma parcela significativa da crítica especializada, O Medo Devora a Alma é uma das obras primas do controverso diretor alemão Rainer Werner Fassbinder. Concebido durante o intervalo de duas grandes produções (Martha e Effi Breast), o filme foi realizado com poucos recursos e escrito com a intenção clara de tocar na ferida do racismo velado que permeava a sociedade alemã do pós-guerra, ainda marcada pela sombra do nazismo e submersa na divisão ideológica personificada pelo Muro de Berlim.
A trama tem início quando a viúva Emmi Kurowski, uma mulher velha e combalida como a própria Alemanha, para proteger-se da chuva, procura abrigo num bar freqüentado por imigrantes. Sorrateiramente, pede um refrigerante e passa a observar os clientes do lugar até ser surpreendida por um homem alto, forte e de feições rudes que a convida para dançar, incentivado pela voluptuosa dona do bar, que o desafiou a tomar tal atitude. Ele tem origem marroquina e chama-se El Hedi bem Salem (o mesmo nome do ator), mas é conhecido como Ali, um nome genérico usado para identificar os imigrantes de nome extenso e de difícil pronúncia, divide um apartamento com mais cinco amigos e trabalha numa pequena oficina. Encanta-se com a velha e solitária senhora, de quem se aproximou movido pelo acaso e resolve, por educação, acompanha-la até em casa.
Emmi mora sozinha num pequeno apartamento e devido a forte chuva que insiste em não parar de cair, convida Ali para subir e tomar um café. Ciente da grande distância que o homem terá que percorrer para voltar ao bar e da falta de conforto das suas atuais instalações, resolve convidá-lo a passar a noite, proposta que é prontamente aceita pelo marroquino. Arranja-lhe o pijama do falecido marido e acomoda-o no quarto de hóspedes. Ali não consegue dormir e procura abrigo nos braços de Emmi, como se fosse um garoto assustado em busca do colo materno que há muito foi perdido pelo transcorrer da vida. Os dois passam a noite juntos para surpresa da própria Emmi, que acorda atônita e ao mesmo tempo feliz com as emoções vividas. Tomam café juntos e despendem-se sem firmar compromissos ou estabelecer um novo encontro.
A velha viúva retorna as atividades cotidianas e cumpre o turno diário como faxineira, trabalho que a mesma sempre omite em virtude do preconceito acerca da atividade, considerada um subemprego. Ao final do dia, retorna ao bar na esperança de rever Ali, mas não o encontra. Desolada, retorna para casa e é surpreendida pela figura peculiar do imigrante, que a espera em silêncio, na porta do edifício. Novamente ficam juntos e no dia seguinte Emmi é abordada pelo filho do síndico que, tirando conclusões equivocadas quanto a presença de Ali, a informa que ela não pode sublocar o apartamento ao imigrante. De súbito, ela informa que irá casar-se com o rapaz para evitar maiores problemas. A idéia nascida da impulsividade, deixa o rapaz feliz e incentiva Emmi a transformar o improvável em realidade.
Os dois casam-se sem fazer alarde e iniciam um relacionamento repleto de bons momentos, mas incessantemente atacado pelos olhares de reprovação da sociedade e das pessoas que os cercam. Primeiro são os três filhos de Emmi, que não convivem com mãe há muito tempo e condenam a união; depois as vizinhas fofoqueiras e maledicentes; as colegas de trabalho que passam a desprezá-la e até o dono da mercearia do bairro, que se recusa a vender mercadorias a um estrangeiro de pele escura. Angustiada, Emmi decide viajar com Ali, para acalmar os ânimos de seus opositores e evitar maiores conflitos.
Ao retornar, o casal encontra várias mudanças e esta outra faceta do preconceito racial é habilmente abordada pelo roteiro. Da mesma forma que, logo de início, foram capazes de oprimir e repelir o casal, os detratores de outrora colocam a máscara da dissimulação e empurram para debaixo do tapete todo e qualquer resquício de intolerância quando o os seus interesses pessoais estão em jogo. Assim, um dos filhos volta a falar com a mãe pela simples necessidade de precisar desta para cuidar de seu filho, enquanto viaja a trabalho; as vizinhas passam a necessitar da força de Ali para realizar mudanças e pequenos reparos domésticos; e o dono da mercearia, fecha os olhos para as diferenças e tenta agradar a antiga freguesa para não ter prejuízo na sua receita mensal. A própria Emmi passa a interagir e a corroborar com esta sociedade de faz de conta, movida pelas aparências, onde os interesses individuais são mais importantes que os direitos coletivos. Isto fica bastante claro na cena em que ela deixa que as amigas de trabalho toquem os músculos de Ali, como se este fosse uma atração de circo, um ser “inferior” subjugado e colocado à disposição de pessoas supostamente “superiores”.
As novas imposições sociais deterioram o relacionamento do casal, e Ali vai buscar consolo no corpo farto da dona do bar, uma loira corpulenta e impassível que já havia sido amante do imigrante. Acuado e carente, ele desiste de voltar para casa, deixando a esposa sem notícias do seu paradeiro. Esta, por sua vez, entra em desespero com a ausência do marido e vai buscá-lo no único lugar onde ele poderia ter ido afogar as mágoas: o bar onde os dois se conheceram. De forma simbólica, Emmi adentra o local e, como se fosse a primeira vez, pede para tocar a música que os dois haviam dançado. Ao escutá-la, Ali, quase que mecanicamente, levanta-se e convida a velha senhora para dançar. É o recomeço de um romance interracial destruído pelas mazelas e interferências sociais . Mas nada será como antes, e desta vez o forte Ali caí, contorcendo-se de dor, vencido pelo estresse de um mundo opressora, movido por convenções ortodoxas, sentimentos postiços e pessoas duvidosos. De forma melancólica, o filme termina com o casal dentro de um hospital, com Emmi fazendo juras de amor eterno ao combalido Ali, vitimado por uma úlcera e deitado, inconsciente, numa cama como se fosse um sobrevivente de guerra. Não uma guerra real, mas um conflito invisível, nascido no berço da própria sociedade e tendo como combustível a intolerância e o ódio racial.
Simples e objetivo, muitos dizem que a história é baseada no romance real vivido pelo próprio Fassbinder com o ator El Hedi, um imigrante do sul da África que nunca se adaptou ao tratamento dado aos imigrantes dentro da Alemanha. Ele viveu com o diretor durante os anos setenta e participou de seus filmes como assistente ou atuando em pequenos papéis. A sua própria vida daria um filme e terminou de forma trágica. Desequilibrado e entregue ao alcoolismo, ele surtou numa farra noturna e apunhalou três pessoas. Condenado, enforcou-se na prisão no ano de 1982 . Desta vez, a vida foi mais cruel que a ficção.
O filme ganhou dois prêmios no Festival e Cannes e a atriz veterana Brigitte Mira, vinda de papéis coadjuvantes inexpressivos, foi eleita a melhor atriz alemã do ano de 74 pelo German Film Awards. A obra foi escrita, produzida e musicada pelo próprio Fassbinder, que também atua no pequeno papel de cunhado da velha senhora Emmi.

sábado, julho 01, 2006

MOSTRA DE FILMES IRANIANOS

Entre os dias 4 e 8 de julho (terça a sábado), São Paulo poderá conferir a produção da nova geração de cineastas iranianos promovida pela Galeria Olido. A mostra "Entre sonho e realidade - o novo cinema iraniano", que reúne 13 filmes inéditos no Brasil, entre curtas e longas-metragens, revela um cinema criado no tênue limite entre documentário e ficção, fortemente marcado pela aproximação com a realidade. A mostra é uma co-realização do DEFC - Documentary and Experimental Film Center (Irã) e tem curadoria do cineasta iraniano Massoud Bakhshi.Desde o fim da década de 80, o cinema iraniano vem conquistando espaço nas salas de cinema do país e tornou-se, ao longo deste tempo, razoavelmente conhecido pelo público brasileiro, com sua cinematografia que consegue extrair grandes filmes de argumentos quase sempre bastante simples. Foi a partir dos anos 60, que o documentário e o curta-metragem se consolidaram como gêneros no Irã. Uma nova geração de cineastas independentes como Manuchehr Tayyab , Ali Hatami, Mohammadreza Aslani ,Sohrab Shahid Sales , Amir Nader e Abbas Kiarostami começavam a fazer um "cinema diferente", inspirado essencialmente pela realidade da sociedade iraniana.Após a Revolução Islâmica em 1979, o cinema independente, incluindo também os curtas-metragens e documentários, passa a ser financiado pelo novo governo. O principal motivo do forte incentivo ao cinema nacional é a política oficial de combate ao lançamento de filmes hollywoodianos no país. Neste contexto, a Iranian Young Cinema Society (IYCS, estabelecida em 1983) e o Documentary and Experimental Film Center (DEFC, estabelecido em 1986) recebem a incumbência de descobrir e formar os jovens cineastas.Sustentado pelo Ministério da Cultura e das Artes, com 50 filiais em diferentes cidades do Irã, o IYCS centrou sua atividade na formação de jovens cineastas e na produção de seus filmes de curta-metragem, ao passo que o DEFC produzia, distribuía e promovia documentários e filmes experimentais destes mesmos cineastas, quando atingiam um nível mais profissional.De 1997, a safra de curtas-metragens de ficção e documentários, filmes de animação e experimentais não pára de crescer: são mais de 1000 produções durante este período. Esta situação também produziu cerca de 50.000 formandos em cinema no Irã, que vem obtendo grande sucesso em festivais internacionais de cinema e prêmios para filmes iranianos.

FILMES DA MOSTRA:
"O Outro Lado da Trincheira"(Sangar-e-Roberoo, 2004, 14min)Direção: Bayram FazliDurante a Guerra, numa trincheira, mulher procura seu irmão soldado que desapareceu.

"Linha Desocupada"(Khate Azad, 2005, 14min)Direção: Naghi NematiDois soldados conectam um aparelho telefônico a um poste para conversar com duas mulheres.

"Imam Internet"(Emamzadeh Internet, 2004, 30min)direção: Reza HaeryUm internet café no Sul de Teerã é o ponto de partida para este documentário sobre o uso da tecnologia na sociedade iraniana. Aspirantes a mulás estão conectados à internet e os demais usuários utilizam a rede para os mais diversos propósitos: chats, conversas sobre sexo, aconselhamento espiritual online. Intelectuais e membros do parlamento religioso também dão seus pontos de vista sobre o assunto.

"O Buraco"(Hofre, 2005, 6min)Direção: Vahid NasirianAo caminhar pelo deserto, um homem vê mãos que saem de dentro da areia oferecendo-lhe estranhas criaturas.

"Flores de Pedra"(Shekofehaye Sangi, 2005, 80min)direção: Azizollah HamidnezhadNuma pequena cidade fronteiriça, professor descobre que um de seus alunos trabalha a contragosto numa avícola, para completar a renda familiar. Ele, então, vende seus quadros na intenção de solucionar os problemas financeiros do aluno.

"Lendo a Sorte"(Fal-e-Ghahveh, 2005, 4min)direção: Sarah SaeidanDuas mulheres lêem a sorte na borra do chá enquanto o filho de uma delas imagina figuras assustadoras.

"As Borboletas Estão Logo Atrás"(Parvaneha Badraghe Mikonand, 2004, 80min)direção: Mohammad Ebrahim MoaieryNeda é uma menina que vive na parte Norte do Irã. Depois da morte de sua mãe, seu pai a leva para viver com sua nova mulher e filhos. Ao vê-la deprimida, seu irmão dedica-se a fazê-la feliz.

"Ele"(Ou, 2004, 91min)direção: Rahbar GhanbariUm clérigo que vive perto das montanhas Sabalan, no Nordeste do Irã, divide seu tempo entre os problemas familiares e as demandas dos habitantes de sua cidade, até que é convidado a tornar-se líder de uma mesquita.

"Círculo"(Dayereh, 1999, 14min)direção: Mohammad ShirvaniAno a ano a vida tediosa de um velho solitário passa.

"Milkan"(documentário, 2004, 30min)direção: Mino KianiNa primavera, as tribos de Gooran, Gholkhani e Banzardeh permanecem em Dalahou, no lado Norte das montanhas zagros. O filme retrata aspectos da vida tribal nessa estação, quando as mulheres são responsáveis por obter lenha e água, preparar comida e construir abrigos. Em Dalahou, mulher significa vida.

"Aan"(2005, 15min)direção: Poopak MozafariO encarregado de cuidar de uma estação de trem abandonada no deserto pinta seus pensamentos e desejos. Numa noite, chega um passageiro.

"Fair Play"(Sokoute Toulani, 1999, 30min)direção: Ebrahim AsgharzadehOs jogos da Copa do Mundo na França fazem com que Babak perceba suas raízes, após muitos anos vivendo no exterior.

"Identificação de uma Mulher"(Shenasaei-Ye-Yek Zan, documentário, 1999, 20min)direção: Massoud BakhshiUma mulher aposentada, que trabalhava em uma fábrica de lâmpadas, fala sobre sua vida, seu casamento e seu filho que vive nos Estados Unidos.

(EXTRAÍDO DA PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA)

domingo, junho 25, 2006

O VÔO DA MORTE

UNITED 93
Idem. EUA/Ingl./Fran., 2006. De: Paul Greengrass. Com: Christian Clemenson, Trish Gates, Polly Adams, Cheyenne Jackson, Opal Alladin, Gary Comok. OP/DR. 91 min.
Primeiro filme comercial a tratar da tragédia que acometeu os Estados Unidos no dia 11 de setembro de 2002 (o segundo está sendo finalizado por Oliver Stone e deverá estrear ainda este ano nos EUA). De forma inteligente, o diretor Greengrass centralizou a história no vôo da aeronave United 93, o único dos quatro aviões seqüestrados que não atingiu o seu objetivo final e caiu num campo do interior da Pensilvânia. Enquanto os dois primeiros chocaram-se contra as torres gêmeas do World Trade Center e o terceiro contra o Pentágono, o vôo em questão estaria a caminho de Washington, tendo como alvo o Capitólio.
Mesclando de forma hábil o suspense gerado pelo clima claustrofóbico do interior da aeronave, com a ação e o empenho das cenas passadas nas torres de controle aéreo, onde militares e civis assistem absortos a destruição de monumentos e a queda “simbólica” do império americano, o filme prende a atenção desde o início, onde acompanhamos os preparativos e a concentração silenciosa daqueles quatro homens prestes a cometer um ato extremo em nome da fé e de ideais questionáveis.
Baseado no relato dos passageiros, que conseguiram entrar em contato com as famílias antes da queda do avião usando os celulares, em dados coletados nos relatórios da comissão de investigação e nas informações da caixa preta do avião, o roteiro é hábil ao gerar expectativas sobre uma história da qual já sabemos o final e ao registrar o suposto empenho de alguns passageiros que tomaram as rédeas da situação e tentaram enfrentar os seus algozes. O filme deixa evidente o nervosismo e o despreparo dos terroristas, e a demora por parte das autoridades norte americanas em tomar uma atitude mais rápida contra o perigo iminente.
United 93 é uma crônica eficaz sobre uma tragédia anunciada, constituída por uma ágil montagem, um elenco desconhecido e competente (escolha acertada do diretor, pois a história por si só já é forte o suficiente e a presença de um astro desviaria a atenção) e a dose exata de drama e suspense. Ponto para o diretor, que iria dirigir o terceiro filme da série dos X-Men, e acertadamente optou por este projeto. A sua câmera nervosa está presente e o timing para a ação continua intacto. Preparem-se, pois o filme é um jogo de nervos a flor da pele.

sábado, junho 24, 2006

O JAPÃO POP

É tão raro a comercialização de filmes nipônicos por estas praias, que o registro deste evento torna-se imprescindível: "Entre os dias 28 de junho a 16 de julho o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, receberá a mostra "JAPÃO POP-O NOVO CINEMA JAPONÊS". O evento apresenta um panorama inédito no Brasil da cultura jovem do Japão atual, a partir do olhar de alguns de seus mais importantes e originais cineastas contemporâneos. Foram escolhidos filmes que "refletem e revelam tanto nos aspectos da produção quanto na temática, o que de mais novo está ocorrendo na arte no Japão deste início de milênio", diz Marcos Mantoan, gestor do CCBB. Além da apresentação dos filmes, serão realizadas palestras (sempre aos sábados), que abordarão o surgimento deste cinema e a visão de seus autores.

FILMES
Blue Spring (foto acima) (Aoi Haru)2000, 35 mm, 14 anosDir. Toshiaki ToyodaSufocados e entediados pela vida de estudante, Kujo e seu amigo de infância Aoki acabam de entrar, juntos com outros colegas, no colegial. Em um perigoso jogo onde eles saltam e batem palmas até se segurarem de volta no parapeito da cobertura do edifício da escola, é decidido quem vai comandar o grupo, e a escola. Kujo alcança um novo recorde de oito palmas. Mas para ele, vencer o jogo e comandar a escola parecem não importar nem um pouco. Incomodado com essa atitude de Kujo, Aoki repentinamente muda de visual e comportamento, entrando em rivalidade com seu antigo amigo.Primeira adaptação para cinema de um livro do popular artista de "mangas" Matsumoto Taiyo, Blue Spring é uma reflexão sobre os problemas e ansiedades de um grupo de estudantes do ensino secundário. Com sua história totalmente centrada na vida dentro do ambiente escolar, que é tratado quase como um universo à parte, o filme mostra a difícil busca da individualidade dentro das relações de poder e de necessidade de auto-afirmação dos jovens estudantes.

Electric Dragon 80.000 V (Electric Dragon 80.000 V)2000, 55 min, Vídeo, 12 anos.Dir. Sogo IshiiQuando criança, ao subir em uma torre de alta tensão, "Dragon eye" Morrison sofreu uma descarga elétrica que o carregou com a força de 80.000 Volts. Agora ele divide seu tempo entre explosões de violência, tocar sua guitarra e procurar lagartos perdidos. Thunderbolt Budd, um perito em eletricidade com o mesmo poder de Morrison, ao descobrir sua existência resolve torná-lo seu rival e atraí-lo para um duelo. Até que os dois finalmente se encontram em uma batalha com a carga de relâmpagos.O filme, além de reassumir uma forma anarco-punk dos anos 80, ressalta o submundo dos becos e telhados de Tókio, em uma linguagem visual que deve muito à arte dos mangás. Com uma trilha sonora punk e barulhenta, seu caráter audacioso é reafirmado pela presença de dois grandes ídolos do cinema japonês (Tadanobu ASANO e Masatoshi NAGASE) nos papéis principais, não escolhidos por acaso, segundo Ishii, que mostra, literalmente, a sua intenção de chocar o público.

Female (Fimeiru) 2005, 118 min, 35 mm, 16 anosDir. Tetsuo Shinohara, Ryuichi Hiroki, Suzuki Matsuo, Miwa Nishikawa, Shinya TsukamotoFEMALE é uma coleção de cinco curtas eróticos, baseados em contos de escritoras de sucesso japonesas e dirigidos por importantes diretores, que revelam a natureza, a força, as fraquezas e os instintos de cinco mulheres de gerações diferentes.

Firefly (Hotaru)2000, 164 min, 35 mm, 16 anosDir. Naomi KawaseAyako é uma dançarina de striptease em depressão após sofrer um aborto e terminar seu relacionamento com um namorado abusivo. Daiji é um solitário artesão que produz cerâmicas para cerimônias religiosas. O encontro dos dois vai levar a um relacionamento no qual ambos tentarão superar os retrocessos de suas existências para entrar em uma nova fase na vida. Em Hotaru, Kawase investiga temas como tradição e memória, tentando aos poucos penetrar no mundo interior de seus personagens.Festivais e prêmios: Melhor Atriz, Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, 2001. Prêmio CICAE, Prémio FIPRESCI, Festival Internacional de Cinema de Locarno, 2000.

Hush! (ídem) 2001, 135min, 35mm, 12 anosDir. Ryosuke HashiguchiNaoya vive uma vida auto-centrada como um homem gay assumido, até que em uma casualidade conhece Katsuhiro e se apaixona. Asako, uma mulher psicologicamente frágil que deseja ter um filho, conhece os dois por acaso em um restaurante e vê, em Katsuhiro, o pai ideal. Ela então propõe que concebam, juntos, uma criança. Naoya opõe-se à idéia, e se irrita com Katsuhiro, que sempre escondeu sua homossexualidade e não consegue se decidir. A já complexa relação entre os três vai ser colocada em xeque com a visita inesperada da família de Katsuhiro.Hashigushi consegue fazer justiça a todas as suas personagens e às muitas linhas narrativas e temas. Vemos os três protagonistas se separarem, antes que suas vidas se cruzem novamente. Naoya trabalha em uma pet shop e freqüenta bares e boates gays, mas tem a sensação de que falta algo em sua vida relaxada e um tanto quanto egoísta. Quando conhece Katsuhiro, ele se apaixona. Katsuhiro esconde sua homossexualidade de sua família e amigos, inclusive de um colega, que está apaixonado por ele. A terceira protagonista é Asako, uma mulher com um histórico de doença mental e desejo por crianças. Quando Katsuhiro a trata de forma paternal em um encontro muito breve em um restaurante, ela decide que ele seria o pai ideal. Seu desejo, é claro, causa problemas no relacionamento entre Naoya e Katsuhiro. O complexo relacionamento triangular atinge um clímax cômico e trágico durante uma visita inesperada da família de Katsuhiro. Ryosuke realizou um melodrama cativante e em muitos momentos cômico sobre relacionamentos (homossexuais), amizade, solidão e família. Uma mulher decide que quer ter um filho com um homem gay. O que o namorado dela vai achar disso? O que é uma família? Como nós reconhecemos uma? São duas das questões colocadas por "Hush!". Em uma sociedade que não encontra mais segurança nas antigas tradições, três pessoas solitárias tentam criar uma definição de família, na qual possam acreditar.

It's Only Talk (Yawarakai Seikatsu)2005, 126 min, 16 anosDir: Ryuichi HirokiYuko, uma mulher solteira e desempregada que passa por um período de depressão, divide seu tempo entre alguns amigos homens, cada um com seu estilo próprio. Para conviver com cada um deles, ela adapta sua própria personalidade, atuando de diferentes formas dependendo de quem está por perto, o que acaba escondendo de todos como ela realmente é.Tendo o vídeo digital com meio para apresentar a personagem Yuko, o filme revela problemas reais e contemporâneos. As emoções da mulher japonesa de trinta e poucos anos, que considera o fato de uma mulher seguir carreira profissional tão apelativo quanto ser uma dona de casa à parte do mundo, fazendo com que ela encare a total falta de alternativas e o medo do relacionamento e da intimidade. Um filme leve sobre uma mulher independente que tem um problema não tão leve assim. Yuko tem quatro amantes.

No One's Ark (Baka no Hakobune)2002, 111min, 35mm, 12 anosDir. Nobuhiro YamashitaO jovem Daisuke e sua namorada, Hisako, deixam Tóquio e vão para a pequena cidade natal de Daisuke, tentar convencer a população local a consumir uma bebida saudável que, por causa de seu horrível sabor, eles não conseguem vender em Tóquio. Mas nem sua própria família e seus colegas de infância se empolgam com a empreitada dos dois. Ambientado no início da década de 90, o filme mostra, com toques de humor, a dificuldade das novas gerações em achar um lugar na economia de seu país."Se Jarmusch reencarnasse como um japonês de vinte-e-poucos anos, ele filmaria No One's Ark", escreveu um crítico. Observações aguçadas e boas piadas mostrando uma crise como pano de fundo.

Otakus in Love (Koi no Mon)2004, 116 min, 35mm, 12 anos Dir. Matsuo SuzukiMon, um pobre artesão que desenha mangás em pedras, ao recolher uma pedra no chão tem sua mão pisada pelo salto do sapato de Koi, uma garota viciada em cosplay e popular criadora de mangas para meninas. Koi, na mesma hora, se sente atraída pelo rapaz, que continua interessado na pedra. Passeando pelo universo extremamente popular do mangá no Japão, o filme narra a relação tortuosa dos dois, onde opostos se atraem, mas também se repelem.Por ser baseado em um "manga" de Hanyunyuu Jun, o filme apresenta uma série de piadas internas dos adeptos leitores de "mangas" populares.

Ping Pong (Ping Pong)2002, 114 min, 35 mm, 12 anosDir. Fumihiro Masuri (Sori)Amigos de longa-data, Peco e Smile chegaram a uma encruzilhada. Smile é o melhor jogador, mas perde constantemente para Peco, devido a um deturpado senso de amizade. Com a possibilidade dos dois se encontrarem na final de uma importante competição, a rígida técnica Obaba pressiona Peco: é hora de impor-se ou desistir. Para Smile, impor-se é duro, para Peco, desistir é quase impossível.

Tokyo Noir (Tokyo Noir)2004, 127 min, 35 mm, 18 anosDir: Masato Ishioka, Naoto KumazawaUma coletânea com três histórias curtas sobre a vida de três mulheres vivendo em Tóquio e suas diferentes atitudes em relação ao sexo. Um filme onde o erotismo é utilizado como uma ferramenta para delinear os traços psicológicos das personagens e contextualizar o momento em que vivem.

Vibrator (Vibrator)2003, 95 min, 35 mm, 16 anosDir: Ryuichi HirokiRei Hayakawa, uma escritora independente, tem o dom de ouvir vozes dentro de sua cabeça. Mas as vozes lhe causam dor: elas a preocupam, dificultam seu sono, a levam a beber e causam desordens alimentares. Uma noite, em uma loja de conveniência, com as vozes mais altas que nunca em sua cabeça, ela conhece um motorista de caminhão. Ela decide embarcar com ele em uma viagem e, enquanto seu corpo se rende às vibrações do caminhão, vai aos poucos se libertando das vozes em sua cabeça.Com este filme, Ryuichi(mesmo diretor de It's Only Talk e co-diretor de Female),explora esta 'geração perdida', tema que abordará também em "It's Only Talk", simbolizada por vidas conturbadas e futuro incerto. Questionado sobre o sucesso do filme em vários festivais internacionais, inclusive por ter sido eleito o melhor filme de 2003 pela crítica, Ryiuchi credita o fato ao filme tratar de questões basicamente femininas e à maneira como elas são descritas, aliado à curiosidade masculina em entender o universo feminino." (extraído da programação oficial do evento)

sexta-feira, junho 23, 2006

O OLHO

Este é um dos mais originais cartazes de todos os tempos. O Festival Internacional de Cine Erótico de Barcelona irá realizar esse ano a sua décima quarta edição, mas ainda não conseguiu superar a criatividade desta peça que conseguiu unir com maestria as idéias de visão cinematográfica e erotismo, que é o tema predominante dos filmes apresentados no evento. Uma idéia explícita, expressa de forma implícita e que não choca nenhuma platéia, pois as crianças enxergarão como um olho, enquanto que os adultos vislumbrarão o real sentido da imagem. Genial!

quarta-feira, junho 21, 2006

TRÊS PERSONAGENS EM CONFLITO

ANTARES.Austria, 2004. De: Götz Spielmann. Com: Petra Morzé, Andréas Patton, Harry Priz, susanne Wuest, Dennis Cubic, Andréas Kiendl, Martina Zinner. A/DR. Visto em 19/06. 105 min
Inédito no Brasil, ANTARES é mais um forte, vigoroso e ousado representante do novo cinema vindo da Áustria. Mostrando invejável domínio de cena, o diretor Spielmann costura habilmente três histórias independentes, cujos personagens somente têm em comum o endereço: residem num amplo e populoso condomínio formado por edifícios e situado no subúrbio. Durante toda a trama eles se esbarram por alguns instantes, interferindo superficialmente ou participando como coadjuvantes dos outros segmentos graças ao bem elaborado roteiro, que relata de forma crua e direta momentos de intenso conflito vivido por três personagens. A primeira é uma enfermeira, casada e mãe de uma adolescente, que entrega-se sem limites aos jogos sexuais propostos por um homem de quem nem sabe o nome. A temperatura sobe e assim como outras produções austríacas recentes (Dog Days e outros), o sexo é praticamente explícito. No segundo segmento, temos uma jovem caixa de supermercado ávida para realizar o sonho de ser mãe e insegura quanto a fidelidade do namorado. O último protagonista é um corretor de imóveis instável e violento que faz de tudo para readquirir o amor da esposa e o respeito do filho pequeno. Apesar de independentes, as histórias complementam-se por expor as reações inusitadas de pessoas comuns diante de situações limites. Contando com um excelente e corajoso elenco, o filme prende a atenção desde o começo e chama a atenção para liberalidade e tolerância do povo austríaco. No primeiro segmento, por exemplo, a filha adolescente da enfermeira é lésbica e o fato é tratado com extrema naturalidade pelos pais, fato raro para os nossos ultrapassados padrões latinos.

sábado, junho 17, 2006

OS VIVOS E OS MORTOS

LAD DE SMA BORN
Idem. Dinamarca, 2004. De: Paprika Steen. Com: Sofie Gråbøl, Mikael Birkkjær, Laura Christensen, Lars Brygmann, Karen-Lise Mynster, Søren Pilmark, Lena Endre. A/DR. 104 min.
Será que os seres humanos são capazes de superar as perdas impostas pela vida? É a pergunta que o filme procura a todo instante responder. Seja através do casal principal, que perde a filha única num trágico atropelamento e não consegue reconstruir a vida; no casal formado por Nisse e Vivi, que ao optar por uma vida sexual mais intensa, deixou o tempo passar e perdeu a chance de ter filhos; na figura da jovem mãe solteira que perdeu a oportunidade de dar um lar digno ao seu bebê e vive sob a tutela da assistência social; e na figura patética e sofrida da corretora de imóveis que separou-se do marido, tornou-se alcoólatra e provocou a morte acidental de uma criança. São perdas e danos irreversíveis que pairam sobre as cabeças de cidadão comuns, perdidos no meio de sentimentos adversos, dúvidas recorrentes e sofrimento intenso.
Essa colcha de retalhos tecida por pequenas e intensas tragédias humanas compõem a poderosa estréia por trás das câmeras da atriz dinamarquesa Paprika Steen, musa do movimento Dogma 95, onde estrelou “Festa de Família” e fez uma pequena participação em “Os Idiotas” de Lars Von Trier. Loira e boa atriz, ela demonstra segurança e competência num filme denso, sem concessões e apoiado por um elenco primoroso. Vale destacar a contida interpretação do ator Mikael Birkkjaer (que havia visto antes no filme Oh Happy Days, no apagado papel de marido da protagonista), que centraliza no olhar marejado toda a dor e a fúria sentidas pela perda da filha única; e a atriz Karen-Lise Mynster, que foi protagonista no filme de estréia de Liv Ullman (Sofie), e aqui rouba a cena como a mulher responsável pelo atropelamento fatal da filha única do casal central (essa cena não é mostrada, pois o filme começa cinco meses após esse incidente), uma alcoólatra inconveniente que vive marcando encontros infrutíferos com estranhos, para aplacar a solidão e manter a sanidade mental. Ela trabalha como corretora de imóveis e todas as manhãs, antes de sair para a labuta diária, ensaia um sorriso mecânico diante do espelho e decora frases de efeito para vestir o personagem da profissional simpática e equilibrada que há muito deixou de ser.
Duas cenas merecem destaque: a bestial vingança perpetrada pelo pai contra a corretora e o belo final onde o casal tenta trocar de carro, por considerá-lo grande demais para apenas duas pessoas, e a esposa chora e fala pela primeira vez sobre a perda da filha, diante de um atônito vendedor de carros. Este, aliás, é responsável pela frase que irá nortear a vida do casal: - Carros grandes são bons para realizar viagens longas. O casal se entreolha, desiste da compra, entra no carro decidido a recomeçar e a câmera os acompanha distanciando-se pelas ruas da cidade. Os letreiros sobem e ao fundo ouvimos a música “Loosing my Religion” (do REM) na voz sensual de Nina Parssons, vocalista da banda nórdica The Cardingans. Belo e tocante.

quinta-feira, junho 15, 2006

AME-O OU DEIXE-O

SALVE-SE QUEM PUDER – A VIDA
Sauve qui peut – La vie. França,1980. De: Jean-Luc Godard. Com: Isabelle Huppert, Jacques Dutronc, Nathalie Baye. A/DR. 87 min.
Não procurem compreender a obra de Jean-Luc Godard, no máximo tentem apreciá-la. Herméticos, inovadores e contestadores são alguns dos adjetivos que acompanham os filmes deste iconoclasta surgido na década de cinqüenta em pleno berço intelectual francês e que, de lá para cá, tem deixado marcas indeléveis na arte cinematográfica. O seu compromisso desde o início foi “desconstruir” a forma tradicional de fazer cinema, desenvolvendo narrativas sem compromisso com a linearidade, repletas de frases desconexas, cenas inusitadas e críticas explícitas a própria arte de filmar.
Após a fase áurea do seu cinema, que compreendeu toda a década de 60, Godard dedicou-se a um período de experimentações audiovisuais nos anos 70, onde desenvolveu projetos inovadores em vídeo, realizados em parceria com Anne-Marie Miéville. Com a chegada dos anos oitenta, o contestador mais uma vez surpreende e retorna ao cinema ficcional com esta obra interessante e que nada deixa a dever aos seus primeiros trabalhos. De cara, concorreu a Palma de Ouro em Cannes e deu a Nathalie Baye o César de melhor atriz coadjuvante.
O filme acompanha três personagens: a mulher urbana (Baye, jovem e carismática) que viaja para o campo para filmar e montar um documentário; o namorado desta (Dutronc, cantor e ator limitado), que entra em crise com a ausência da amada e funciona como uma espécie de alter ego do diretor dentro da trama, usando o nome de Paul Godard e dando aulas sobre cinema; e a jovem prostituta que trabalha na cidade, mas sonha em comprar uma ampla casa no campo. Durante mais de meia hora acompanhamos as idas e vindas do casal principal que, após esse período, literalmente some da trama dando lugar as desventuras profissionais da prostituta interpretada com frieza e distanciamento por Isabelle Huppert. Neste momento o filme cresce e ganha ritmo, transformando o espectador numa espécie de voyeur desavisado, que observa com surpresa as taras e manias da garota e de seus clientes. Por sinal, Huppert protagoniza duas cenas desconcertantes, recheadas do humor sardônico e cruel de Godard: na primeira, ela dá dicas e verifica a experiência da irmã mais nova, que também decide tornar-se prostituta; na segunda, participa de uma orgia patrocinada por um velho homem de negócios, em companhia de mais duas pessoas, na qual é coagida a emitir sons enquanto pratica sexo grupal e passa baton na boca do velho (!). São sequências ridículas e complexas ao mesmo tempo, capazes de desnudar de forma inequívoca as fraquezas da natureza humana.
Ao final, os três personagens se encontram e o destino impõe as suas regras. A conclusão é satisfatória e termina colocando em cena outros personagens que estavam soltos na trama, caso da irmã da prostituta e da filha do personagem masculino principal. Durante a narrativa, saltam aos olhos as tentativas cênicas do diretor para subverter as regras e expor a fragilidade da linguagem cinematográfica, como no momento em que uma figurante dirige-se a câmera e pergunta sobre a música incidental do filme, que ela não deveria escutar; ou quando a câmera persegue, inadvertidamente, um casal qualquer, colocando em segundo plano o casal principal. São momentos sutis que confundem e irritam os espectadores leigos e fascinam os admiradores deste gênio do inconformismo, que desde o início surgiu para confundir, jamais para explicar.