quinta-feira, janeiro 31, 2008

E DOS PIORES, NIGUÉM FALA?

Numa época pré-carnavalesca onde todos os cinéfilos se deliciam com a lista do Oscar e dão os seus palpites, vou nadar contra a corrente e homenagear o que de pior o cinema do tio Sam produziu ano passado. Com vocês a lista dos nominados ao mais temido prêmio do ano : o Framboesa de Ouro. É verdade que existem algumas injustiças, mas o objetivo final é mesmo tirar sarro com a idústria do entretenimento e jamais ser fidedigna. Afinal, eles se limitam a listar os filmes norte-americanos, imaginem quando descobrirem as produções da Globo Filmes?

Aqui estão os filmes com o maior número de indicações:


I KNOW WHO KILLED ME = 9 Nominations
Worst Screen Couple, Horror Movie, Screenplay, Director, Remake/Rip-Off, Supporting Actress, Actress (2x), Picture

I NOW PRONOUNCE YOU CHUCK & LARRY = 8 Nominations
Worst Screen Couple, Screenplay, Director, Supporting Actor (2x) Supporting Actress, Actor, Picture

NORBIT = 8 Nominations
Worst Screen Couple, Screenplay, Director, Supporting Actor, Supporting Actress, Actor (2x) Picture

BRATZ = 5 Nominations
Worst Screen Couple, Remake/Rip-Off, Supporting Actor, Actress, Picture

DADDY DAY CAMP = 5 Nominations
Worst Screenplay, Director, Prequel/Sequel, Actor, Picture

CAPTIVITY = 3 Nominations
Worst Excuse for a Horror Movie, Director, Actress


Uma péssima sorte a todos!

sábado, agosto 25, 2007

SANGUE SIM, SEXO NÃO

O novo filme de Ang Lee recebeu a censura máxima do MPAA (Motion Picture Association of America), excluíndo a classificação X destinada aos filmes pornôs. Foi classificada com um famigerado NC-17, que proíbe a presença de menores de dezessete nas salas de cinema, a não ser que devidamente acompanhados de pais ou responsáveis. Como nenhum adolescente se submete a um mico desses e considerando que a população americana é puritana até a medula, o resultado é um fracasso de público se considerarmos as altas expectativas de bilhetertias dos grandes estúdios. Graças a Deus o longa é produzido pela independente Focus Features que não manifestou o menor interesse de violar a integridade artítstica da obra efetuando possíveis cortes em prol do faturamento. Segundo fontes informais, o motivo de tanta celeuma é o de sempre: sexo. Ou seja, os americanos continuam os mesmos, assexuados e promovendo guerras mundo afora!

terça-feira, agosto 21, 2007

COMIDA E ESPERMA

FEED
Idem. Austrália, 2005. De: Brett Lenard. Com: Alex O’Loughlin, Patrick Thompson, Gabby Millgate, Jack Thompson, Rose Ashton. A/P. Comentário:
Thriller australiano sobre psicopata que seduz mulheres obesas para alimentá-las até a morte, filmando-as diariamente e colocando as cenas num site da internet. Identificado por um policial especializado em casos grotescos e também atormentado por traumas do passado (flagrou a mãe adúltera), o bandido foge e dá início a uma perseguição de gato e rato onde o computador passa a ser a principal ferramenta de investigação.
Baseado em fatos contemporâneos e cada vez mais corriqueiros, nos quais a Internet tem sido usada inadvertidamente para exorcizar todos os tipos de taras e fetiches de pessoas desequilibradas, protegidas pelo anonimato garantido pela tela fria do computador, “Feed” mergulha o espectador num mosaico de imagens mórbidas e fortes que podem chocar os mais sensíveis. Quando o filme tem início a vítima da vez é Deidre, que comemora a marca recorde de mais de 600 libras de peso prostrada na cama de onde não consegue mais sair, tendo como companhia o amante psicopata que gasta o tempo filmando a degradação física da mulher e promovendo orgias dignas do clássico setentista “A Comilança” do italiano Marco Ferreri, regadas a comida e esperma.
A idéia original é da dupla de atores centrais, ambos egressos da tv australiana. Alex O’Loughlin faz sem exageros o complexo psicopata atormentado pelas visões da mãe obesa e chegou a ser cotado para o papel de James Bond, perdendo a vaga para o britânico Daniel Craig. Patrick Thompson também está muito bem como o policial depressivo às voltas com a amante ninfomaníaca. Ele é filho do veterano ator Jack Thompson, presente no longa como o chefe de polícia. O filme perde um pouco o ritmo da metade para o final, mas recupera-se com uma conclusão recheado de sarcasmo. Foi realizado em vídeo de alta definição e merece ser descoberto. Inédito no Brasil.

terça-feira, agosto 07, 2007

UMA BELEZA EFÊMERA

VIRGINIA
Idem. EUA, 1983. De: John Seeman. Com: Shauna Grant, Paul Thomas, Janey Robbins, Peter Bent, Jamie Gillis, Lili Marlene, Hershel Savage. A/DR. 85 min
Comentário: Filme da época de ouro da indústria pornô norte-americana, onde as obras eram rodadas em película e existia uma preocupação clara por histórias enxutas (com começo, meio e fim bem definidos) e originais, que servissem não só de suporte às cenas eróticas, mas também funcionassem como um atrativo a mais dentro do conjunto oferecido. Neste “Virginia” temos um bom exemplo do requinte atingido pelas produções do período e de como um produto subjugado por boa parte da crítica e do público conseguiu se aproximar em termos de conteúdo a muitos filmes ditos “sérios” e classificados como sendo de “arte”.
O tema tratado aqui é o incesto e o diretor carrega nas tintas dramáticas para contar a história da jovem Vírginia que sente um forte desejo não declarado pelo pai, fotógrafo bem sucedido e cheio de amantes. Logo na primeira cena, vemos a garota espiando por uma porta entreaberta o pai transando com a namorada. Durante todo o longa ela tem visões eróticas com o genitor e ao final descobre que ele também tem um fetiche obscuro: fotografar casais desconhecidos em pleno ato sexual. Pai e filha expõem as suas fraquezas e consomem o seu desejo carnal numa cena de sexo lindamente concebida, com direito a travellings de câmera caprichados e enquadramentos elegantes. Aliás, elegância é o que não falta aqui graças ao belo elenco, a competente parte técnica e a boa música incidental. Apesar do tema espinhoso, é uma fita recomendada para as mulheres devido ao bom gosto geral.
No papel do pai temos o veterano Paul Thomas, que nasceu no berço de uma família de industriais e enveredou desde muito jovem pelo mundo das artes cênicas, tendo trabalhado na Broadway em musicais de sucesso como "Jesus Cristo Superstar", do qual também participou da versão cinematográfica dirigida por Norman Jewison em 73. A sua estréia no cinema pornô ocorreu em 1975 e perdura até hoje, consolidando nos anos 90 uma bem sucedida carreira como diretor de filmes hardcore. Pelo filme “Virginia” ganhou o seu único prêmio como ator no Adult Film Association of America, espécie de Oscar do cinema pornô.
O papel título é feito pela linda Shauna Grant, loira da época pré-silicone onde a beleza era um pressuposto genético. Típica garota americana, ela teve dificuldades para se firmar no meio devido ao seu vício em cocaína e a sua falta de entusiasmo durante as cenas de sexo. Em 1983, com menos de um ano de carreira e a marca de 30 filmes no currículo, deixou a indústria de filmes pornô. Mesmo loge do universo erótico, seu vício teve um efeito devastador em sua vida. Seu namorado, um traficante de cocaína chamado Jake Erlich, deu-lhe um trabalho em uma loja de materiais em couro que possuía. Quando foi preso com cargas de drogas, Shauna retornou aos filmes adultos. Em março de 1984, aos 20 anos, Shauna cometeu suicídioo com um rifle calibre 22. Sua morte deixou a indústria em choque. Muitos que a conheciam, incluindo seus pais, insistiram que ela foi assassinada. Alguns, entretanto, afirmaram que ela já havia tentando suicídio antes mesmo de deixar Farmington, com o intuíto de afirmar que ela já era uma garota com problemas. A carreira e morte de Shauna foram adaptados para um filme feito para a TV, chamado Shattered Innocence, um filme que lembra pouco o que realmente aconteceu.

segunda-feira, julho 30, 2007

MORRE O ESTETA DA PSIQUE HUMANA

O cinema perdeu hoje um de seus grandes mestres. Acordamos mais tristes nesta manhã do dia 30 de julho, com a notícia da morte do sueco Ingmar Bergman, aos 89 anos de idade. Especialista em dissecar a alma humana em obras herméticas e permeadas de uma beleza singular que descrevia a psique humana sem filtros de retoque, Bergman teve uma carreira extensa composta de inúmeros filmes e peças teatrais e uma vida tumultuada, onde sobraram amantes e esposas (foram cinco casamentos!).
Dentre as cenas memóraveis que concebeu, fica na memória o jogo de xadrez com a morte da obra-prima "O Sétimo Selo". Durante mais de oitenta anos Bergman conseguiu ganhar a partida, mas foi derrotado neste último domingo. Provou que era persistente e deixou como legado uma obra de rara beleza. Vida eterna ao mestre da melancolia!

terça-feira, julho 24, 2007

TALENTO NU

RAW TALENT
Idem. EUA,1984. De: Larry Revene. Com: Jerry Butler, Lisa De Leeuw, Cassandra Leigh, Joey Silvera, Rhonda Jô Petty, Taija Rae, Ron Jeremy. A/C. 82 min.
Comentário:
Sem dúvida, é um dos melhores pornôs produzidos em película pela indústria americana antes da invasão do vídeo, que tomou conta e empobreceu criativamente o cinema hardcore a partir dos anos 90. Aqui ainda podemos contar com um elenco que sabe atuar e com um diretor que, além das tradicionais cenas eróticas, sabe priorizar o boa trama. E olha que ele conseguiu antecipar em quase dez anos uma história que seria melhor explorada e desenvolvida pelo esteta Paul Thomas Anderson, na obra-prima Boogie Nights (1997). O fio condutor é o mesmo: a ascensão e decadência de um astro pornô.
Aqui acompanhamos as tentativas frustradas do ator amador Eddie Czeropski para conseguir um papel no teatro, enquanto tenta sobreviver fazendo bicos em subempregos, dos quais eventualmente é demitido. Incentivado por um amigo garçom, ele vai assistir a filmagem de um filme pornô e termina substituindo o ator principal que não consegue deixar o membro ereto. Em pouco tempo, Eddie vira sensação no meio e passa a ser assediado por diretores e produtores inescrupulosos. A decadência é inevitável e, após uma desilusão amorosa, ele tenta redirecionar a sua carreira como ator de Soap Operas televisivas, deixando para trás a carreira de mero brinquedo sexual.
O filme é uma crítica direta ao próprio sistema que o produziu, pois retrata a indústria pornô como um meio infestado de pessoas mal intencionadas e produtores desumanos, que visam o lucro a todo custo e tratam os atores com desdém. A obra ficou famosa não pelos seus méritos criativos ou pelas sequências eróticas, mas sim por intercalar várias mensagens subliminares durante a projeção. São pequenos inserts de 1 a 2 frames por segundo com frases como SEX, KILL, EAT e LAUGH, imperceptíveis ao olhar humano, mas capazes de influenciar o subconsciente de quem assiste. Até hoje não se tem notícia de espectadores que saíram transando loucamente e/ou matando por aí após ver a fita, mas esse instrumento duvidoso já foi realmente usado por muitas outras produções como importante ferramenta de marketing. Portanto, não estranhe se depois de assistir a um inocente desenho da Disney, você sentir um desejo incontrolável de adquirir os bonecos dos personagens ou visitar a Disneylândia.
Vale destacar os ótimos desempenhos de Jerry Butler como Eddie Czeropski e de Lissa De Leeuw como a diretora sacana e inescrupulosa. Jerry é loiro, de estatura mediana e pouco dotado para o pornô, mas convencia pelo talento e vitalidade nas cenas eróticas (em alguns momentos lembra muito Robert Downey Jr.). De Leeuw era uma ruiva gordinha e detentora de enormes seios. Infelizmente, ela foi uma das primeiras atrizes pornôs a falecer em decorrência da AIDS.

sexta-feira, julho 13, 2007

O OLHO QUE TUDO VÊ

COMING APART
Idem. EUA, 1969. De: Milton Moses Ginsberg. Com: Rip Torn, Sally Kirkland, Viveca Lindfords. A/DR. Comentário:
Fita de vanguarda com estrutura experimental bastante original. Psiquiatra nova-iorquino oculta uma câmera super 8 na sala de seu apartamento. A câmera é estrategicamente colocada defronte a um sofá, adornado por um grande espelho capaz de refletir todo o ambiente ao redor. O objetivo inicial é filmar as suas consultas diárias, mas ele toma gosto pela nova brincadeira e passa a registrar fatos banais do seu cotidiano como as constantes brigas com a ex-esposa, a relação conturbada com a amante maníaco-depressiva e uma orgia em companhia de amigos.
Assim como voyeurs de primeira viagem, assistimos a todo o filme pelas lentes imóveis da câmera do psiquiatra num exercíco curioso de metalinguagem. Vemos o mesmo que ele vê, como cúmplices impassíveis de seres humanos frágeis que desnudam as suas angústias diante de nossos olhos. Apesar da imobilidade proprocionada pelo plano fixo, os personagens comandam a ação e movimentam-se sem saber que são registrados. Só ficamos angustiados quando eles somem do foco e temos que adivinnhar o decorrer da ação (caso da seqüência final, onde um tiro é dado e ficamos sem saber se alguém foi atingido), num exercício de imaginação só proporcionado pela literatura.
Filme de estréia de Ginsberg, que depois faria mais um único longa-metragem (o terror B “O Lobisomem de Washington” de 1973) e ganharia prestígio como editor de filmes de terceiros. Por conter algumas ousadias como a nudez frontal de um travesti, “Coming Apart” quase não foi visto em sua estréia já que recebeu a temida classificação X do MPPA (órgão responsável pela censura nos EUA), destinada aos filmes pornográficos e ficou poucos dias em cartaz. Descoberto pelos franceses, foi relançado em 2004 pela Gémini Films e virou cult. Mais do que merecido.
Além da competência interpretativa habitual de Rip Torn como o psiquiatra, quem rouba o filme é uma jovem (e constantemente nua) Sally Kirkland, excelente no difícil papel da amante tresloucada e bipolar, que vai da alegria contagiante até a mais profunda depressão em questão de segundos. Um desempenho magistral que foi obscurecido pela péssima distribuição do filme, fazendo com que a carreira de Kirkland desvalace para pequenas pontas durante todos os anos setenta, só sendo reerguida em 87 com o filme “Anna” que lhe proporcionou o Globo de Ouro de melhor atriz dramática e uma indicação ao Oscar. Coisas do cinema.........

domingo, julho 01, 2007

O PEQUENO CÉU

O PEQUENO CÉU
El Cielito. Argentina, 2004. De: Maria Victoria Menis. Com: Leonardo Ramirez, Mônica Lairana, Dario Levy, Rodrigo Silva. L/DR. 93 min. Comentário:
Que filme, que filme! Daquelas obras que assitimos ao acaso, sem referências ou expectativa alguma e que nos arrebata de maneira irreversível. Mais uma prova cabal do grau de excelência dos novos realizadores argentinos. Com um estilo minimalista, de pouquíssimos diálogos e muita sensibilidade, a diretora compensa habilmente os parcos recursos que tem com o ótimo elenco e as belas paisagens naturais. Ela narra a singela história de Félix, jovem andarilho de vinte e poucos anos, de quem não sabemos o passado e cujo futuro é incerto. Ao pular de um trem em movimento, onde viajava clandestino, vai parar numa estação perdida no interior da Argentina. Sem dinheiro e rumo incerto, o rapaz puxa conversa com Roberto, homem marcado pelo tempo e vestido de maneira desleixada, com o objetivo claro de comer os restos de comida deixados pelo homem sobre o balcão do bar.
No segundo encontro dos dois, Roberto convida o andarilho para laborar em sua pequena propriedade rural, ajudando na colheita de frutas silvestres, plantadas e comercializadas de forma improvisada em bancas de madeira colocadas estrategicamente à beira da estrada. Félix prontamente aceita a oferta e vai viver com o agricultor e sua pequena família, formada pela sofrida e submissa esposa Mercedes e o gracioso Chango, filho do casal de poucos meses de vida. A empatia entre Félix e o bebê é instantânea e o rapaz de olhos tristes passa a ter os dias preenchidos pelo sorriso doce e farto daquele pequeno ser. Mas nem tudo são flores, e o ambiente de paz começa a ficar tenso com a forma violenta e gratuita com que Roberto trata a mulher, imprimindo um rol quase que diário de tapas, chutes e palavras de baixo calão, potencializadas pelo vício alcoólico do homem.
Certo dia, Mercedes some. Suicídio ou fuga? O roteiro não explicita, mas deixa pistas sobre o destino da mulher ao mostrar as suas vestes desarrumadas no guarda-roupa, assim como a mala intacta sob a cama. Apreensivo sobre o futuro de Chango e certo que Mercedes não irá mais voltar, Félix rouba algum dinheiro e parte com o menino para Buenos Aires, deixando para trás Roberto incosciente e totalmente consumido pelo vício da bebida. No trem, Félix observa as imagens do povo pobre e sofrido que vive no interior e que guarda muitas semelhanças com a nossa brava gente brasileira. Nesse momento, ele recorda da sua infância feliz ao lado de uma mulher idosa, que poderia ser sua mãe e/ou avó (isso nunca fica claro). Ao fundo, pontuando esse momento de pura emoção, ouvimos a bela música “El Jangadeiro” na voz da cantora Liliana Herrera, uma espécie de Elis Regina local.
Ao chegar a capital, Félix prontamente se hospeda num hotel barato e vive dias de intensa harmonia ao lado de Chango. Mas o dinheiro acaba e os dois são despejados. Sem perspectivas, vão parar na rua como indigentes, sobrevivendo de esmolas e dormindo ao léu, esquivando-se das rondas policiais e dos olhares gananciosos dos marginais de plantão. Desesperado, Félix é cooptado por um deliqüente de rua que vive de pequenos golpes e aceita participar de um roubo, em troca de guarita e comida. Pela primeira vez em dias, ele deixa Chango sob os cuidados de outra pessoa, a irmã do deliqüente, e despede-se do menino prometendo voltar. Mas a sua promessa não se concretiza e o rapaz termina prostrado ao chão, abatido por uma bala. Ao olhar para o céu, percebe-se no canto da sua boca o esboço de um pequeno sorriso, pois em meio as estrelas ele consegue ver refletido o rosto da mulher que o criou e a figura terna do pequeno Chango. Tocante.
A trajetória pontuada pela angústia e repressão social enfrentada pelo personagem Félix na segunda metade do filme, nos remete muito a via crucis inexorável do pai deseperado no clássico do neorrealismo italiano “Ladrões de Bicicleta”. A própria “naturalidade” do elenco amador e das locações fazem de “Pequeno Céu” um exemplar moderno do cinema italiano realizado no pós-guerra, com pouco dinheiro e forte apelo crítico-social. Sinal inequívoco de que beber na fonte do passado não gera somente obras anacrônicas, mas sim fitas realistas, que driblam a falta de recursos com criatividade e, sobretudo, sensibilidade. O filme recebeu vários prêmios no Festival de San Sebástian e no Festival de Havana. Trata-se do terceiro longa-metragem da diretora Maria Victoria Menis, que estreou em 89 e divide o seu tempo também escrevendo e dirigindo para a TV.

quarta-feira, junho 20, 2007

PURPURINA PURA....

20 CENTÍMETROS
20 Centimetri. Esp., 2005. De: Ramón Salazar. Com: Mônica Cervera, Pablo Puyol, Miguel O´Dogherty, Concha Galán, Lola Dueñas, Juan Sanz, Najwa Ninri, Rossy De Palma, Pilar Bardem. A/M.112 min. Comentário:
Só mesmo um conterrâneo de Pedro Almodóvar para conceber este delírio musical homo-erótico, impregnado de luzes, cores, muito humor e uma pitada de drama. Em seu segundo longa, o jovem Ramon Salazar demonstra fôlego de veterano ao narrar com extrema competência técnica e apurado estilo visual a história cheia de sonhos e desilusões de Marieta, jovem travesti madrilenho que deseja acabar de uma vez por todas com a incômoda herança familiar: um membro fálico de 20 centímetros! O que seria motivo de orgulho para muitos homens e objeto de disputa entre as mulheres, transforma-se num pesadelo diário para um homem com alma feminina, que sobrevive vendendo o próprio corpo nas ruas de Madri e sofre com as crises constantes de narcolepsia, distúrbio que lhe promove o sono profundo e o deixa dormindo nas horas mais inusitadas. Invariavelmente, Marieta é encontrada desfalecida e abandonada nas sarjetas, com as roupas rasgadas e sem saber muito bem o que aconteceu. Só lhe cabe recolher o pouco de dignidade que ainda resta e voltar para o pequeno apartamento de subúrbio que compartilha com Tomás, anão e melhor amigo que vive envolvido em pequenos golpes e que sonha torna-se músico. Ao redor dos dois, uma fauna urbana repleta de tipos esquisitos, onde se destacam a vizinha gorda e mãe de um garoto mulato, e o másculo repositor de verduras da feira livre que passa a freqüentar os sonhos eróticos do travesti, mas logo o decepciona ao demonstra ser passivo durante o sexo.
O ponto alto do longa, são os caprichados números musicais encenados durante os surtos inesperados de sono da protagonista, onde a fantasia corre solta e ela vê-se como uma glamurosa estrela hollywoodiana em meio a cenários inusitados e coloridos, onde amigos e clientes viram personagens da ação, dançando e cantando como profissionais. Fazendo uso do mesmo recurso consagrado pelo australiano Bazz Luhman no genial “Moulin Rouge”, o diretor usa e abusa de canções pops consagradas nas vozes de Madonna, Freddie Mercury e outros para emoldurar as coreografias, gerando empatia imediata e transformando-as em números dignos da Broadway .Outro grande achado é a interpretação agridoce da notável Mônica Cervera, estrela dos primeiros trabalhos do diretor (o curta “Hongos” e o longa “Piedras”). Detentora de uma figura esguia e estranha que lembra muito a musa almodovariana Rossy De Palma, homenageada aqui numa pequena ponta como uma colega de rua de Marieta. Também merece destaque a corajosa composição do galã Pablo Puyol, como o amante passivo de Marieta, viciado em sexo anal. Uma fita despojada, colorida e extremamente bem conduzida. Infelizmente, os mais puritanos ficarão chocados com algumas liberdades e ousadias, mas são detalhes necessários ao tema e só tornam o resultado final mais divertido e saboroso

sábado, junho 16, 2007

TAXIDERMIA

Três histórias, três épocas e três gerações. Avó, pai e filho tendo como cenário a ascensão e queda do comunismo na Hungria. O primeiro trabalha como capataz na fazenda de um militar em pleno inverno e tenta sublimar os seus desejos carnais, mergulhando num mundo de fantasias, onde a realidade funde-se com a ilusão e o resultado é imprevisível. O segundo é fruto do adultério da mulher do patrão com o capataz e desde bebê chama a atenção por ter nascido com uma deformidade genética que provocou uma protuberância ao final da coluna, que faz lembrar um rabo suíno. Comilão desde criança, torna-se campeão num esporte mórbido onde os competidores (todos obesos) comem até vomitar (!). O terceiro é taxidermista e tenta dividir-se entre o trabalho extenuante que consiste em preservar as características físicas de animais mortos através de metódos científicos e os cuidados com o pai, que ficou imóvel e grotesco devido ao excesso de peso.
Através dos três personagens, acompanhamos flashes da história da própria Hungria, já que o longa começa na Primeira Guerra Mundial, adentra os anos de chumbo do regime comunista e chega aos dias atuais sem fazer concessões de nenhuma ordem. Caprichando na estética visual e no realismo gráfico de algumas cenas, capazes de revirar o estômago e colocar para correr os espectadores mais sensíveis, o diretor Pálfi propõe um jogo fascinante que coloca em cena temas complexos e vitais aos seres humanos como o sexo, a comida e a morte. Por estar dividido estruturalmente entre esses três ciclos, “Taxidermia” foi comparado por alguns críticos ao filme “Saló” do mestre Píer Paolo Pasolini. Comparação essa totalmente inócua, já que o segundo é uma das mais duras e cruéis críticas ao nazismo já feitas e considerado o filme mais transgressor de todos os tempos, tendo sido banido em vários países à época de seu lançamento.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor em parceria com a esposa Ruttkay, é baseado nos trabalhos do escritor húngaro Parti Nagy Lajos e impregnado de uma fina ironia, presente até nos momento mais mórbidos e olha que não são poucos. Durante toda a trama somos desafiados por cenas desconcertantes e ao mesmo tempo necessárias ao contexto tratado. Logo de início, um pênis ereto e flamejante serve de metáfora ao desejo reprimido; em seguida, o vômito constante dos personagens indicam que os excessos (independente do que sejam) nunca trazem felicidade e causam dependência; e, por último, o volume de sangue e vísceras revelam a fragilidade humana diante da morte.
Um belo e forte tratado em celulóide sobre a vida e a morte, que só peca pela falta de consistência do roteiro ao tentar ligar as três histórias, já que a primeira fica destoante se comparada as outras duas, que apresentam uma seqüência lógica ao manter a figura do pai obeso como ponte narrativa, enquanto que os personagens do primeiro segmento somem totalmente na trama seguinte. Mas o resultado final é realmente instigante e inovador. Uma curiosidade: a trilha sonora é assinada por Amon Tobin, que nasceu no Rio de Janeiro e pratica o trip-hop.
Taxidermia - Der Ausstopfer. Hung./Áustria/França, 2006. De: György Pálfi. Com: Csaba Czene, Gergely Trócsányi, Marc Bischoff, Adél Stanczel, Piroska Molnár. 91 min.

quarta-feira, junho 13, 2007

TAKE OFF

Antes de tudo, quero ressaltar que o objetivo deste blog é falar sobre cinema, independente do gênero, país de origem e duração. Portanto, as obras pornôs de qualidade que incrementaram os sonhos molhados de muita gente (principalmente nos áureos anos 70) também serão bem-vindas. É o caso de TAKE OFF (EUA, 1978), uma feliz adaptação da obra clássica “O Retrato de Dorian Grey” de Oscar Wilde, produzida na época de ouro do pornô americano. Contando com o inteligente roteiro de Daria Price e a competente direção de Armand Weston (que dirigiu apenas oito filmes e é responsável pelo clássico do gênero “A Defiance of God” de 1975), acompanhamos dos anos 30 até o final dos anos 70, as várias aventuras sexuais do playboy Darrin Blue, que misteriosamente permanece jovem, enquanto a sua imagem num antigo filme de 8mm sofre o desgaste do tempo. O seu destino começa a mudar quando um casal descobre o antigo filme e a mulher começa a desconfiar que homem belo e sedutor que conheceu a beira da piscina é mesmo homem do filme.
Eficente reconstituição de época, elenco repleto de beldades que vão desde a veterana Georgina Spelvin (a inesquecível Miss Jones) até a linda Annette Haven, com direito a luxuosa ponta do travesti Holly Woodlawn (estrela do filme TRASH e amiga pessoal de Andy Warhol) como uma cantora de cabaret no segmento relativo aos anos 40. Enfim, um filme pornô de muita classe.
O papel principal é vivido pelo ator Wade Nichols, um caso a parte dentro da indústria pornô. Considerado um dos mais belos atores do gênero, Nichols tinha penetrantes olhos azuis e um típo físico próprio dos nos setenta, com direito a peito cabeludo e um indefectível bigode. Ele começou a carreira no início dos anos setenta em fitas gays e logo passou ao cinema “straight”, ou seja, filmes heterossexuais onde transava com mulheres. Rapidamente alcançou o estrelado no meio e teve o seu grande momento com “Take Off”. Paralelo a carreira cinematografica, ele gravou um LP com o nome de Dennis Parker e estourou nas pistas de dança no final dos nos 70, com hits como “Like an eagle” e “I´m A Dancer”. Esta segunda música fez parte da trilha sonora da novela Marrom Glacê e o ator esteve no Brasil para promovê-la em 1979. Neste mesmo ano, a sua carreira deu uma guinada de 180 graus e ele conseguiu um papel fixo na telessérie de sucesso “The Edge of Night” da poderosa Rede ABC, onde viveu o Chefe de Polícia Derek Mallory de 79 até 84. Infelizmente, o ator morreu no dia 28 de janeiro de 1985. Em algumas publicações, a causa mortis alegada é que uma séria de complicações decorrentes da AIDS ocasionou o óbito, em outras fontes a informação é que o astro teria cometido suicídio ao tomar conhecimento que era portador do vírus. Polêmicas a parte, Wade Nichols permanece imortal nos filmes e nas alegres canções que marcaram a era disco.

UM CINEMA SEM CONCESSÕES

O cinema de Fernado Arrabal não é para ser compreendido, mas sim apreciado. Dramaturgo, amante das artes e discípulo de Salvador Dali, ele consegue transpor para a tela do cinema argumentos absurdos e cenas desconcertantes que prendem a atenção desde o primeiro frame e fazem juz as pinturas consagradas pelo mestre do surrealismo. É arte pura em película.
No seu segundo longa-metragem como diretor J´IRAI COMME UM CHEVAL FOU(1973), ele conseguiu a proeza de ser censurado na liberal França e ter causado polêmica e mal-estar nos poucos países onde foi exibido. A obra acompanha a desconcertante via-crucis vivida do playboy Aden Rey (vivido pelo norte americano George Shannon), que inicia a trama peregrinando sem rumo pelo deserto, como se fugisse de algo. Na verdade, ele matou a própria mãe (afrancesa EmannelleRiva, estrela do clássico Hiroshima Mon Amour), com quem mantinha uma forte relação edipiana. Desamparado e perdido na aridez de uma paisagem morta, ele encontra na solitária figura do pigmeu Marvel, o amor e a afeição da mãe morta, iniciando uma estranha relação homo-erótica, mais insinuada do que explicitada. Totalmente dependendente do pequeno homem, Aden o leva para a cidade grande, onde a pureza do selvagem é engolida pela crueldade das pessoas e pela frieza da metrópole. Perdido, Marvel foge para o seu habitat natural, tendo Aden em seu encalço. O reecontro do dois é inevitável e traz consequências trágicas pois resulta na morte do playboy a pauladas, executada pelo pigmeu que em seguida come a carne do rapaz, numa forte sequência que funciona como metáfora da união eterna daqueles dois seres tão diferentes e ao mesmo tempo tão dependentes, unidos para sempre numa simbiose perfeita de corpo e mente.
Os mais sensíveis ficarão chocados com as imagens fortes jogadas na tela sem concessão alguma. São vísceras expostas, membros eretos, pessoas urinando e defecando, um travesti desnudo com a genitália a mostra e várias outras leviandades, mescladas com cenas impregnadas de beleza e plasticidade cênica. A trama não é contada de forma linear, mas o objetivo é esse mesmo: confundir mais do que explicar e soltar pistas durante toda a projeção sobre acontecimentos passados e futuros, apoiados em metáforas poderosas. Instigante, ousado, obsceno, violento, enfim um coquetel de emoções díspares de difícil, porém saborosa ingestão.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

A JUSTIÇA TARDA, MAS NÃO FALHA

Surpresas? Algumas, mas nada de extraordinário. A cerimônia de número 79 do prêmio mais cobiçado do planeta foi marcada pelo esmero técnico, o humor refinado e um forte apelo pelo politicamente correto. O Oscar é um jogo de cartas marcadas, onde os premiados já são antecipadamente estabelecidos pelos prêmios dos sindicatos de classe e pelo forte lobby dos estúdios, além da incômoda imparcialidade de parte da crítica especializada que não faz cerimônia alguma ao alardear os seus favoritos e menosprezar os demais concorrentes.
A maioria dos sindicatos é composta por votantes da Academia e comumente os resultados coincidem, principalmente em quesitos técnicos como direção de arte, fotografia, som e montagem. Basta uma consulta rápida a esses resultados horas antes do evento para fazer bonito nos inúmeros bolões que proliferam por aí, facilitados pela agilidade da internet. Como toda regra tem a sua exceção, este ano tivemos duas discrepâncias gritantes: no quesito fotografia o ganhador do sindicato e franco favorito era Emmanuel Lubezki por “Filhos da Esperança”, mas quem ganhou foi Guillermo Navarro por “O Labirinto do Fauno”; enquanto que o riquíssimo figurino do filme chinês “Curse of the Golden Flower “, perdeu para o de “Maria Antonieta” (a incursão malfadada de Sophia Coppola pela vida da nobre francesa), até então ignorado pelo sindicato.
No tópico interpretação, quase não houve surpresas com a rainha de Helen Mirren consolidando a barbada do ano, Forest Whitaker confirmando o favoritismo e Jennifer Hudson (melhor coadjuvante) provando ser a melhor coisa de “Dreamgirls”, que surgiu como filme do ano e foi perdendo espaço desde o dia das indicações, quando ficou fora das categorias de Filme e Direção. Quanto a Eddie Murphy, a sua derrota para o veterano Alan Arkin (“Pequena Miss Sunshine”), não foi surpresa para quem esteve em Los Angeles nos últimos dias. Apesar de fortalecido pelas vitórias no Globo de Ouro e no SAG Awards, o astro teve a sua campanha prejudicada pelo lançamento de seu último filme, a comédia “Norbit” onde Eddie interpreta uma mulher gorda e asquerosa. A mega exposição do ator travestido em imensos outdoors pegou mal junto aos conservadores membros da Academia, formada em sua maioria por senhores e senhoras de idade avançada que não admitem certas ousadias.
Por falar em ousadias, esses mesmos membros que esnobaram no ano passado os cowboys gays de “O Segredo De Brokeback Montain” e deram o prêmio de melhor filme a “Crash”, tiveram que engolir a seco o primeiro beijo lésbico da cerimônia. A cantora Mellissa Etheridge, assumidamente lésbica, ao receber o prêmio de melhor canção pelo documentário “Uma Verdade Inconveniente”, beijou na boca a companheira e, para não deixar dúvida alguma, usou o microfone para agradecer a “mulher” pelo apoio dado e pelos quatro filhos maravilhosos (!). Tal atitude só corroborou a aura liberal da noite, comandada pela comediante (e também lésbica) Ellen De Generis que, de forma discreta e sarcástica, soltou inúmeras piadas de dupla sentido e contou com a presença da namorada , a linda atriz Portia De Rossi, na platéia.
No geral, foi uma festa divertida, onde os melhores momentos ficaram a cargo de um coral que representou os ruídos e sons necessários a confecção de um longa-metragem, e as pequenas e geniais inserções de um ballet performático, que usando a sombra dos bailarinos concebeu cenas de alguns dos filmes indicados.
A mais do que merecida homenagem a Ennio Morricone foi outro momento mágico e mostrou ao mundo um pouco do talento absurdo deste compositor italiano, responsável pela trilha sonora de mais de 500 filmes (!). E olha que ele está firme e forte aos 79 anos de idade.
Por fim, a premiação terminou com a esperada correção de uma das maiores injustiças de sua história. Quando o trio formado por George Lucas, Francis Ford Coppola e Steven Spilberg adentrou o palco do luxuoso Kodak Theather com o envelope que revelaria ao mundo o melhor diretor do ano, já se previa o nome a ser anunciado. Dito e Feito. Sorridente e com o humor que lhe é peculiar, Martin Scorsese vibrou como um iniciante e até pediu aos amigos que confirmassem se era mesmo o seu nome estampado naquele papel. De quebra, ainda viu o seu filme ser eleito o melhor do ano, botando na oficina a kombi velha de “Pequena Miss Sunshine” e na geladeira o caldeirão multi cultural proposto por “Babel”. Aliás, este último talvez tenha sido o maior derrotado da noite, ganhando apenas o Oscar de melhor trilha-sonora.
A seguir, a lista completa dos premiados:

Melhor filme: "Os Infiltrados"Melhor diretor: Martin Scorsese ("Os Infiltrados")Melhor ator: Forest Whitaker ("O Último Rei da Escócia")Melhor atriz: Helen Mirren ("A Rainha")Melhor ator coadjuvante: Alan Arkin ("Pequena Miss Sunshine")Melhor atriz coadjuvante: Jennifer Hudson ("Dreamgirls - Em Busca de um Sonho")Melhor filme estrangeiro: "A Vida dos Outros" (Alemanha)Melhor filme de animação: "Happy Feet: o Pingüim"Roteiro adaptado: "Os Infiltrados" (William Monahan)Roteiro original: "Pequena Miss Sunshine"Direção de Arte: "O Labirinto do Fauno"Fotografia: "O Labirinto do Fauno" (Guillermo Navarro)Figurino: "Maria Antonieta"Melhor documentário: "Uma Verdade Inconveniente"Melhor documentário de curta-metragem: "The Blood of Yingzhou District"Montagem: "Os Infiltrados"Maquiagem: "O Labirinto do Fauno"Trilha Sonora Original: "Babel" (Gustavo Santaolalla)Canção original: "I Need to Wake up" ("Uma verdade inconveniente")Melhor curta-metragem de animação: "The Danish Poet"Melhor curta-metragem: "West Bank Story"Edição de som: "Cartas de Iwo Jima"Som: "Dreamgirls - Em Busca de um Sonho"Efeitos Visuais: "Piratas do Caribe: O Baú da Morte"

sábado, dezembro 02, 2006

A NOIVA DE LÁZARO

Com poucos recursos, câmera na mão e tendo como força motriz a estupenda atuação de Cláudia Rojas, o diretor Fernando Merinero desenvolveu uma pequena obra-prima impregnada de realismo e sensibilidade. Rodado na ruas de Madri, tendo os transeuntes como figurantes e cenários reais como locação, o filme aborda os percalços vividos pelos imigrantes cubanos em países cosmopolitas e de mesma língua como a Espanha. No caso específico da trama, somos inseridos de imediato no dia-a-dia de incertezas e pequenos golpes do cubano Lázaro, homem simples e cheio de sonhos que gasta o pouco do que tem com drogas para aplacar a dura realidade e a falta de perspectivas na qual está inserido. Num ímpeto de loucura e desespero, ele ataca uma rica espanhola em busca de sexo e dinheiro e é preso em flagrante. Condenado, vai para a cadeia no mesmo dia em que Dolores, a sua noiva, chega a Madri. Perdida, indefesa e sem recursos, a jovem cubana é acolhida por uma desconhecida e inicia uma busca desesperada para obter pistas sobre o paradeiro do amado. Ao localizá-lo, fica chocada com o motivo da prisão, mas é capaz de sublimar a dor e levar cocaína na vagina para alimentar o vício do rapaz. Durante uma visita íntima, Dolores é violentada física e psicologicamente pelo namorado e desiste do intuito de recuperá-lo, iniciando uma solitária e difícil luta pela sobrevivência na selva de concreto espanhola. Depois de pequenos bicos, um romance fortuito com outra mulher e um rosário extenso composto de prostituição, drogas e humilhações, a jovem finalmente encontra a redenção nos braços de Paco, artesão de poucas palavras, com quem vai viver e trabalhar. Mas a vida não é um mar de rosas, e Lázaro sai da prisão com a meta de reencontrar a noiva. Casualmente, os dois se deparam em plena rua madrilenha, enfeitada com luzes e coress devido a uma festa religiosa, e o furor sexual é instantâneo, descambando para uma transa explícita em meio ao breu de uma praça abandonada. Apesar da tentação, Dolores agora é uma mulher vivida e resiste aos apelos eróticos do antigo noivo. Sem maiores dúvidas ou questionamentos, ela retorna para a visa segura ao lado de Paco e reescreve o seu inevitável destino de imigrante ilegal, terminando o filme rodeada pelo amor do marido e de uma filha, fruto dessa relação. Quanto a Lázaro, ele retorna às ruas e a sua rotina de homem largado, solitário e drogado que sobrevive graças a caridade de quem lhe detesta. Ousado, visceral e perturbador, “A Noiva de Lázaro” permanece na memória e deixa marcas indeléveis em que se atreve a assisti-lo.

terça-feira, setembro 12, 2006

VER PARA CRER

Se A DAMA NA ÁGUA de M Night Shyamalan é ou não é um grande filme ainda não sei, pois não assisti. Mas desde já podemos considerá-lo a maior polêmica cinematográfica dos últimos anos, haja vista a quantidade de opiniões e críticas divergentes sobre a obra. Alguns a consideram uma obra-prima moderna, onde a fantasia se sobrepõe a realidade de forma magistral numa espécie de contos de fadas dark. Outros já são mais radicais e acham que essa nova incursão de Shyamalan no mundo da ficção resultou num filme mal feito, mal concebido e arrogante, como o próprio diretor que reservou para si mesmo o papel de um escritor que no desenrolar da trama transforma-se numa espécie de novo messias(!).
Será que essa birra da crítica especializada é uma revolta velada contra o personagem do crítico de cinema antipático e pretensioso da trama, que termina sendo o único personagem devorado por um monstro? Ou será que Shyamalan realmente exagerou na dose e afundou na própria pretensão? Essa resposta só teremos vendo a obra, pois as críticas que tem surgido aos borbotões tanto na Internet quanto nas revistas especializadas não servem como baliza, já que vão da paixão escancarada e incondicional à obra até o ódio mortal contra Shyamalan e sua trupe. Nestes momentos, vale lembrar que A VILA na época de seu lançamento foi altamente questionado e hoje faz parte da lista de grandes filmes de muitos críticos de renome por aí. É ver para crer se estamos diante de uma bomba ou de um clássico.

quinta-feira, julho 27, 2006

MAMÃE " BARRA-PESADA"

MINHA MÃE
Ma Mère. Fran./Port./Aust./Esp., 2004. De: Christophe Honoré. Com; Isabelle Huppert, Louis Garrel, Emma De Caunes, Joana Preiss, Jean-Baptiste Montagut, Dominique Reymond, Olivier Raboudin, Philippe Duclos. A/DR. 110 min.
Sinopse:
Baseado no romance póstumo e controverso de Georges Bataille, o filme tem como protagonista o jovem Pierre, um adolescente de 17 anos, que após a morte do pai é introduzido a um mundo hedonista e repleto de depravações pelas mãos de sua atraente mãe.
Comentário:
Trata-se de uma variação moderna e obscena sobre o complexo de Édipo, com a bela e impassível Huppert fazendo às vezes de uma Jocasta ninfomaníaca, alcoólatra e bissexual. Ela interpreta Claire, uma mulher promíscua e casada com um homem mais velho que incentiva as suas aventuras sexuais com outras pessoas. Quando o marido morre num misterioso e nunca explicado acidente, Claire passa a conviver mais intensamente com o filho Pierre, um adolescente cheio de dúvidas e curiosidades sexuais.
A estranha e dúbia relação entre mãe e filho passa a ser o cerne da trama e é desenvolvido de forma confusa, tendo o paradisíaco balneário das Ilhas Canárias como cenário. A principio os dois trocam farpas e aos poucos vão ficando mais íntimos, ao ponto da mãe introduzir o próprio filho nos seus escapistas jogos eróticos. Na verdade, Claire expõe a sua face mais obscena na tentativa de afastar e obter a rejeição do garoto, pois ela sente que Pierre está cada vez mais carente e apaixonado pela sua sensual figura materna. Infelizmente os meios pouco ortodoxos que ela utiliza não funcionam e a narrativa caminha para um sórdido desfecho.
O roteiro é confuso em muitos aspectos e coloca em cena personagens que surgem do nada e ganham uma surpreendente importância, caso da personagem Hansi (vivida pela atriz Ema de Caunes) que entra em cena depois de quase 50 minutos de duração e passa a ser o principal interesse amoroso do jovem Pierre. O personagem de Huppert sai de cena e retorna para um dos finais mais desconcertantes que já assisti: o corpo sem vida de Claire é observado por um atônito Pierre, que começa a se masturbar em pleno necrotério (!). Hard, muito hard, pena que o filme resulte lento e sem sentido em vários momentos.
É o segundo longa de Honoré, mais conhecido como roteirista. Apesar da competente Huppert, com a sua introspecção e os seus expressivos e tristes olhos, o filme é dominado pelo jovem Garrel (filho do diretor Phillipe Garrel) no papel do complexo Pierre, um ator que detém poucos, mas eficientes, recursos dramáticos e que possui uma beleza exótica, explorada na íntegra durante toda a narrativa. Inédito no Brasil.

OS URSOS TAMBÉM AMAM

CACHORRO
Idem. Esp., 2004. De: Miguel Albaladejo. Com: José Luiz Garcia Perez, Dvid Castillo, Empar Ferrer, Elvira Lindo. A/DR . Comentário:
Alberto é um homem acima do peso, na faixa dos trinta e poucos anos, dentista de profissão e homossexual assumido. Devido aos seus atributos físicos, ele participa de um restrito grupo constituído por homens gordos, barbudos e peludos carinhosamente apelidados, no meio gay, de ursos (bear nos EUA e cachorro na Espanha, daí o título original). A sua tranqüila e pacata vida de solteiro, agitada esporadicamente pelos amigos e os amantes de ocasião, é posta a prova quando a única irmã, uma hippie tresloucada, resolve viajar a Índia com o amante e deixa o seu filho sob os cuidados do irmão. Tio e sobrinho tornam-se cúmplices, com o primeiro sempre preservando o segundo de sua vida atípica. Por obra do destino, a mãe é presa por porte de drogas e o dentista terá que lutar pela guarda do garoto com a avó paterna, inimiga declarada da nora.
Usando humor e uma delicadeza ímpar, o diretor desenvolve de forma satisfatória um tema espinhoso e poucas vezes abordado no cinema: a guarda de crianças por homossexuais. Para quebrar o gelo da audiência mais puritana, o filme já mostra ao que veio logo na seqüência de abertura com dois homens gordos transando graficamente. O que vem a seguir é um drama humano e contemporâneo sobre a nova conjuntura social, onde os homossexuais passaram a ser uma parcela economicamente significava da população mundial, com direitos igualitários e os mesmos desejos e anseios de um cidadão comum, apto a constituir uma família. Tratando do tema da paternidade sem levantar bandeira, já que o protagonista não procura ser pai, ele é simplesmente jogado naquela situação por circunstâncias adversas, o diretor evidencia que amor e respeito são sentimentos universais e independem de raça, credo e sexo. No final das contas, o garotinho que parecia ser o personagem mais frágil da trama, demonstra ser uma fortaleza numa cena crucial do longa. Em suma, trata-se de um belo registro de nossa época.

quinta-feira, julho 20, 2006

DIFÍCIL RECOMEÇO

TURBILHÃO
Cavalcade. França, 2005. De: Steve Suissa. Com: Titoff, Berenice Bejo, Laurent Bateau, Axelle Laffont, Marion Cottilard, Ricahard Bohringer, Estelle Lafebure, Vincent Martinez, Buno Todechini, Maria Jurado. L. OP/R. 90 min. Comentário:
Baseado numa história real, o filme do diretor francês Suissa é extremamente bem intencionado ao tentar retratar a tragédia que se abateu sobre a vida do músico Bruno De Stabenhath, mas peca pela direção convencional e pelo roteiro desprovido de um maior aprofundamento. Músico por profissão, playboy por vocação, Bruno sofreu um violento acidente automobilístico e perdeu os movimentos do corpo. Devido a altura da lesão, ficou tetraplégico e iniciou uma batalha inglória para adquirir uma nova vida, com o mínimo de qualidade. Endividado pelos excessos cometidos em noites mal dormidas, farras intermináveis e transas passageiras, ele contará com a solidariedade dos amigos e familiares para recomeçar.
O filme já tem início com Bruno sendo internado e lembrando, em flashbacks, dos dias anteriores ao acidente. Acompanhamos as suas apresentações como DJ, os ensaios e as discussões com os membros de sua banda de rock, somos cúmplices de suas traições, do dia em que foi abandonado pela namorada e do último encontro com a família numa casa a beira amar.
Na segunda metade do longa, acompanhamos o tortuoso tratamento de reabilitação, o convívio com os outros pacientes e uma frustrada tentativa de suicídio. Por fim, ele retorna ao lar e inicia um romance com uma bela jovem chamada Manon, que lhe dá esperanças para recomeçar. Tudo assim. Bem segmentado e burocrático, sem maiores ousadias e nenhuma empatia. A mensagem final de que o amor tudo salva, soa piegas e personagens importantes como os pais de Bruno simplesmente somem da trama, ou fazem uma mera figuração, caso do homem contratado para cuidar do rapaz e que mal aparece.
Em suma, um tema instigante desenvolvido de forma frouxa e superficial. Melhor seria se o diretor centralizasse a trama no período vivido pelo protagonista dentro do Hospital, rodeado por profissionais dedicados e pacientes desequilibrados. Infelizmente, ele opta por desenvolver várias subtramas que nunca chegam ao fim, atrapalhando o cerne da questão que é a reabilitação física e psicológica de um ser humano. No resultado final, salvam-se a boa composição do ator Titoff como Bruno, ele veio da comédia e está perfeito no uso do corpo e nos trejeitos inerentes a um paciente tetraplégico; e a trilha sonora do veterano Michel Legrand, misturando com maestria sintetizadores e instrumentos clássicos. Para finalizar, gostaria de destacar um furo absurdo do roteiro, somente identificável por pessoas do meio médico ou portadores de lesão medular: passados dois meses do acidente, o protagonista se surpreende com um procedimento vital a todo tetraplégico que é o cateterismo vesical. Como o indivíduo perde a sensibilidade do pescoço para baixo e não consegue urinar normalmente, faz-se necessário a introdução periódica de uma sonda no canal peniano para esvaziar a bexiga. Ou seja, desde o primeiro dia de internação o cateterismo é utilizado, tornando-se fundamental à boa recuperação do paciente.
OBS.: A foto acima é do verdadeiro Bruno De Stabenhat

segunda-feira, julho 17, 2006

É PROIBIDO PROIBIR

Foi com muita satisfação que recebi a notícia sobre a reformulação do anacrônico, esdrúxulo e restritivo sistema de classificação etária usada nos cinemas brasileiros, graças a uma liminar do Ministério da Justiça. A partir de amanhã (terça, 18/07), saI o famigerado "Proibido para menores de...” e entra em cena “Recomendado para maiores de...”, bem mais ameno e condizente com os novos tempos.
O que muda efetivamente é que os pais irão determinar o que os seus filhos podem ou não ver nos cinemas, assim como já o fazem no dia a dia em relação a outros assuntos. Assim, um filme recomendado para maiores de 16 anos poderá ser assistido por um jovem de 13 anos, desde que acompanhado pelos pais ou um maior responsável. A classificação anterior só continuará a vigorar para os filmes com cenas fortes de drogas, violência e sexo explícito, que continuarão proibidos para maiores de 18 anos. Ou seja, uma liberdade vigiada, mas muito bem-vinda.
Um sopro de civilidade num país marcado pela desordem civil, moral e ética, onde as crianças menores, devidamente orientadas pelos pais, poderão contar com o abrigo seguro e ilusório dos cinemas. Momentos de fantasia no meio de uma realidade cruel.