sexta-feira, novembro 06, 2009

UM OSCAR PARA MICHAEL?


O burburinho da semana é a possibilidade do documentário “This Is It” receber uma indicação na categoria de melhor filme no Oscar. Diante do excelente resultado obtido nas bilheterias e do consenso crítico em torno das qualidades da produção, a Sony Pictures pretende submetê-lo aos acadêmicos para a disputada categoria principal.
A seu favor, o longa tem o forte apelo popular e o fato de se tratar do único registro dos últimos momentos de um dos maiores fenômenos pop do século XX. Porém, a ausência de uma linha narrativa e a alegação de tratar-se de retalhos do ensaio de um show inacabado são verdades incontestáveis que prejudicam a nomeação da obra.
Mas vale lembrar que em 2010 teremos uma inovação no Oscar que é o número recorde de dez filmes indicados, ampliando a chance de muitas produções, e que a franquia “Michael Jackson” parece mais forte do que nunca mesmo sem a presença física de seu idealizador.

quarta-feira, novembro 04, 2009

OS MESTRES DE CERIMÔNIA


Depois de muita especulação, finalmente foi confirmado o nome do apresentador da cerimônia do Oscar. Desde que Hugh Jackman teve uma performance elogiadíssima na festa deste ano e não renovou o contrato, os produtores estavam em polvorosa à procura de um novo nome. Para agradar a gregos e troianos, optaram não só por um mas por dois apresentadores: Steve Martin e Alec Baldwin. Martin já havia desempenhado esta função por três vezes e saiu-se muito bem. Baldwin é a novidade. Traz na bagagem a sólida experiência teatral e o humor ácido revelado na premiada série 30 Rock, pela qual já ganhou vários prêmios Emmy e Globo de Ouro como ator cômico. Superar Jackman será difícil, mas competência é o que não falta a essa improvável dupla.

domingo, novembro 01, 2009

FOI DADA A LARGADA


Façam as suas apostas! Estamos há dois meses do fim de ano e as associações de críticos norte-americanos, aliadas aos sindicatos de classes irão nominar os melhores do ano dentre as várias categorias cinematográficas existentes. Tudo servirá de balizamento para a próxima festa do Oscar, que irá divulgar os seus indicados no dia 20 de fevereiro do próximo ano.
O Oscar deste ano traz uma novidade extra: dez filmes serão indicados à categoria principal, ao invés dos tradicionais cinco. Essa abrangência numérica ficou restrita a categoria de melhor filme e é uma espécie de concessão feita aos produtores, já que a premiação funciona como uma poderosa vitrine capaz de triplicar o faturamento de um filme indicado.
Mas vamos deixar de lerô-lerô e iniciar o passatempo predileto de todo cinéfilo nesses meses que antecedem a grande festa: prever os indicados e possíveis vencedores. A seguir uma lista com os filmes que saem na dianteira graças à críticas favoráveis e as apostas dos principais especialistas e veículos de comunicação norte-americanos.
Alguns já estrearam e outros deverão ter a premiere até o dia 31 de dezembro para pleitear uma vaga nas diversas categorias do Oscar.

POLE POSITIONS
“Avatar"
"An Education"
"The Hurt Locker"
"Inglourious Basterds"
"Invictus"
"The Lovely Bones"
"Nine""Precious: Based on the Novel 'Push' by Sapphire"
"The Road"
"A Serious Man"
"Up"
"Up in the Air"

POSSIBILIDADES
"Bright Star"
"Brothers"
"District 9"
"The Hangover"
"It's Complicated"
"Julie & Julia"
"The Last Station"
"A Single Man"
"Star Trek"
“Where The Wild Things Are”
“Away We Go”
“Moon”
“Sherlock Holmes”
“2012”
“The Young Victoria”

quinta-feira, outubro 22, 2009

NOLLYWOOD


Inadvertidamente você já deve ter caído na pegadinha predileta de dez entre dez cinéfilos:
- Qual a indústria cinematográfica que mais produz filmes no mundo ?
A resposta vem quase que automaticamente e é sempre mesma:
– Hollywood!
Apesar de ainda deter o melhor resultado em termos financeiros, graças ao consumo interno e a exportação de seus filmes mundo afora, Hollywood há muito tempo ocupa a vice-liderança em termos quantitativos.
A Índia com os seus mais de 1 bilhão de habitantes tem ocupado o topo desse ranking produzindo um média anual de surpreendentes 1.091 títulos contra 485 produzidos m Hollywood. Apesar do portentoso volume, trata-se de uma produção voltada exclusivamente para o mercado interno onde as cores exageradas e as danças são itens obrigatórios, independente do tema do filme; e a troca de carícias, olhares e rápidos beijos são o máximo de ousadia diante do puritanismo e respeito às tradições locais.
A auto-suficiência gerada pelo volumoso público interno cobre os custos e não desperta a necessidade de formação de uma demanda externa. Diante de tanta relevância numérica, a indústria cinematográfica indiana foi apelidada de Bollywood - fusão de Bombaim (antigo nome de Mumbai, cidade onde se concentra esta indústria), e de Hollywood - e as suas peculiaridades têm inspirado obras de relevância internacional como o inglês “Quem quer ser um milionário?”, ganhador do Oscar de melhor filme.
A superioridade numérica da Índia sobre o poderio cinematográfico norte-americano é notória e tem sido difundido pelos quatro cantos nos últimos anos graças ao alcance da internet, mas o que muita gente não sabe é que o mercado emergente do momento vem do pobre continente africano e responde pela marca de mais de 800 produções anuais.
Infelizmente, estes dados não são validados pelos órgãos de pesquisa oficiais pelo simples fato dessas produções serem lançadas em DVDS e comercializadas, em sua maioria, para o uso doméstico. Estamos falando da Nigéria, país de condições econômicas adversas onde a renda per capita da população não ultrapassa os US$ 400 anuais e onde o número máximo de salas de cinema se resumem à cinco, todas localizadas na capital.
O surgimento dos equipamentos de vídeo portáteis e de baixo custo, fizeram com que em menos de 15 anos a produção local saísse do zero para um faturamento anual de US$ 250 milhões. Esse montante pode ser até maior, pois estima-se que mais de 300 diretores estejam em atividade realizando filmes completos em no máximo dez dias a um custo total de US$ 15 mil. Rodados em formato digital, são lançados em vídeo-locadoras para venda e aluguel e já fazem sucesso em outros países africanos graças à temática extremamente regionalista, onde assuntos como AIDS, corrupção, religião e ocultismo são recorrentes.
Talvez o maior empecilho para um alcance mais internacional da vasta produção made in Nollywood seja a sua maior vantagem que é o baixo custo. Só para uma rápida comparação, a atriz Genevieve Nnaji é considerada a “Júlia Roberts” local. Enquanto a Júlia verdadeira recebe a extraordinária quantia de 15 milhões de dólares por filme, Genevieve Nnaji ganha "nódicos" US$ 6.000. Mesmo assim, é considerada a atriz mais bem paga do continente. Pelo menos em termos de beleza, ela não deixa nada a desejar as concorrentes americanas como vemos na foto acima.

quinta-feira, janeiro 22, 2009

OSCAR 2009 - PRIMEIRAS IMPRESSÕES


Os indicados ao 81ª Oscar foram divulgados hoje pela manhã nas instalações do Teatro Samuel Goldwyn, em Beverly Hills (EUA). Bastou alguns minutos para que o ator Forrest Whitaker – Oscar por O Último Rei da Escócia em 2006 - ao lado de Sid Ganis, presidente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, revelasse ao mundo os principais indicados ao prêmio mais badalado do cinema. Entre erros e acertos, o conservadorismo da Academia tratou de assassinar o “morcegão” na corrida pela sonhada estatueta dourada e a tradição de prestigiar os filmes dramáticos em detrimento de outros gêneros, como as comédias e os filmes de ação, prevaleceu.
De presença quase certa, corroborada nos últimos meses pelo reconhecimento obtido nas principais associações de classe como o DGA (Directors Guild of America) e o PGA (Producers Guild of America) composto por acadêmicos de respaldo, o tão aclamado filme de Christopher Nolan “The Dark Nigth” foi alijado das principais categorias do Oscar e converteu-se na ausência mais sentida. Felizmente, a interpretação sobrenatural de Heath Ledger foi reconhecida e é, desde já, a maior barbada dentre todas as outras categorias. Caso não vença no próximo dia 22 de fevereiro, será a maior zebra de todos os tempos. De resto, “The Dark Night” conseguiu a expressiva marca de 08 indicações em categorias técnicas, onde é franco favorito.
O vitorioso em número de indicações foi “O Curioso Caso de Benjamin Button” concorrendo em 13 categorias, seguido de perto por “Slumdog Millonaire” com 10. Essa enxurada de láureas para a fábula confeccionada pelo esteta Fincher já era esperada, assim como a lembrança de Brad Pitt como ator. Aliás, o casal mais querido de Hollywood será presença certa na festa, já que a Sra. Pitt Angelina Jolie também abocanhou a sua indicação graças ao seu desempenho de mãe atormentada pelo seqüestro do filho no insosso “A Troca”, dirigido por Clint Eastwood. Este sim, outro esquecido, pois era presença certa na lista de muitos experts pelo seu desempenho como ator no ótimo “Grand Torino”.
Fora a decepção causada pelo não reconhecimento do trabalho magistral de Christopher Nolan à frente de “The Dark Night” e a opção pela direção “convencional” de Stephen Daldry por “O Leitor”, os acadêmicos até que se esforçaram para tornar a premiação mais coerente com a realidade do mercado cinematográfico e deram o merecido espaço aos representantes do cinema independente. Assim tivemos a grata surpresa de ver os nomes “alternativos” de Richard Jenkins (“O Visitante”) e Melissa Leo (“Rio Congelado”) entre as cinco melhores interpretações do ano, cada um na sua respectiva categoria. O filme de Melissa, dirigido pela estreante Courtney Hunt, também foi lembrado na categoria de Roteiro Original, batendo favoritos como o veterano Woody Allen e o seu superestimado “Vicky Cristina Barcelona”.
Apesar de Kate Winslet ter sido indicada como melhor atriz, a sua nomeação ocorreu pelo filme errado. Tudo começou com uma briga interna protagonizada pelo chefe de estúdio Harvey Weinstein e o co-produtor Scott Rudin. Weinstein forçou o lançamento de “O Leitor” para 2008 sob os protestos de Rudin, que queria lançá-lo em 2009 e, com isso, beneficiar “Foi Apenas Um Sonho” na corrida pró-Oscar. Afinal, tinha em mãos o casal protagonista de Titanic, filme recordista de Oscars ao lado de Bem Hur (11 prêmios!), juntos novamente e sob o comando de Sam Mendes, diretor também premiado por “Beleza Americana” e marido de Winslet. Mas o tiro saiu pela culatra e o segundo filme foi o mais prejudicado, garantindo apenas indicações em categoria menores (ator coadjuvante, direção de arte e figurino). Enquanto que “O Leitor” entra na disputa como a produção mais prestigiada pelos acadêmicos, garantindo vaga nas principais categorias (filme, diretor, atriz, roteiro adaptado).
A mal sucedida campanha de “Foi Apenas um Sonho” também promoveu outra injustiça ao não conseguir a indicação para Leonardo Di Caprio, num dos melhores desempenhos de sua carreira. Outra preterida no quesito interpretação foi a inglesa Sally Hawkins por “Simplesmente Feliz”. Queridinha da crítica, ela foi uma das atrizes mais premiadas do ano: ganhou em Berlin, recebeu o Globo de Ouro de Melhor atriz em comédia e quase 11 (!) prêmios da crítica.
Outras surpresas foram a esnobada dada em Bruce Springsteen, cotado como favorito pela música-tema de “O Lutador” e preterido pelas (ótimas) canções de “Slumdog Millionaire”; o recorde da maravilhosa Meryl Streep, que ao ser indicada por “Dúvida” obteve a sua 15ª nomeação, batendo as marcas de Katherine Hepburn e Jack Nicholson (ambos com 12 nomeações); e a agradável inclusão do roteiro original de “Na Mira Do Chefe”, produção pequena que vem surpreendendo e deu a Colin Ferrell o Globo de Ouro de ator.
Como todos encontrarão a lista completa dos indicados na internet, em jornais e demais publicações do gênero vou inovar e listar as grandes omissões. Ou seja, aqueles que quase chegaram lá, mas perderam nos 45 minutos do segundo tempo. É a prova de que em se tratando de Oscar, o CORINGA “às vezes” dita as regras....

AS MAIORES OMISSÕES
MELHOR FILME
- Batman– O Cavaleiro das Trevas
- Wall-E
- Gran Torino

MELHOR DIRETOR
Christopher Nolan, "The Dark Knight"

MELHOR ATOR
Clint Eastwood ("Gran Torino")
Leonardo DiCaprio ("Foi Apenas Um Sonho")
MELHOR ATRIZ
Sally Hawkins ("Happy-Go-Lucky")
Kristin Scott Thomas ("I've Loved You So Long")
MELHOR ATOR COADJUVANTE
Dev Patel ("Slumdog Millionaire")
Eddie Marsan ("Happy-Go-Lucky")

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Rosemarie DeWitt ("Rachel Getting Married")
Debra Winger ("Rachel Getting Married")
Kathy Bates ("Revolutionary Road")

segunda-feira, abril 14, 2008

MARILYN E O "BOQUETE" MILIONÁRIO

Agora não tem jeito. Toda vez que alguém for presenteado com um sexo oral, o popular "boquete", de primeira já tem um apelido a altura para o ato: Marilyn! Não está entendo? Então, leia a notícia abaixo:

"da Folha Online

Para quem acha que os vídeos com cenas de sexo de famosos é algo típico da atualidade, um filme com imagens de Marilyn Monroe (1926-1962) em cenas quentes feito nos anos 50 comprova que esta cultura existe há tempos.

Bert Stern/Efe
Vídeo de Marilyn Monroe (foto) fazendo sexo oral foi vendido por R$ 2,6 milhões nos EUA
Segundo o jornal norte-americano "The New York Post", a cópia de um vídeo da célebre atriz loira fazendo sexo oral em um homem não-identificado foi vendido para um empresário nova-iorquino pela quantia de US$ 1,5 milhão (cerca de R$ 2,6 milhões).
O vídeo, com cerca de 15 minutos e filmado em câmera de 16mm, foi descoberto pelo colecionador Keya Morgan, diretor do longa-metragem "Marilyn Monroe: Murder on Fifth Helena Drive", programado para chegar aos cinemas em 2009.
O jornal informa que a filmagem, feita em meados dos anos 50, apareceu na década de 60, após a morte da atriz, durante as investigações policiais que buscavam comprovar que o ex-presidente John F. Kennedy ou seu irmão Robert eram amantes de Monroe.
Nas imagens silenciosas, a atriz aparece de joelhos em frente a um homem cujo rosto nunca aparece na filmagem. Monroe, por sua vez, não olha para a câmera em nenhum momento.
Morgan disse ao "The New York Post" que descobriu o vídeo enquanto fazia pesquisa para seu documentário sobre a atriz ao conversar com um ex-membro do FBI, que lhe contou sobre uma cópia que foi feita do vídeo, antes de ser confiscado pelo governo norte-americano nos anos 60.
Sobre a hipótese do vídeo ser estrelado por outra pessoa e não a atriz, Morgan é enfático na resposta negativa.
"Você consegue ver instantaneamente que é Marilyn Monroe --ela tinha aquela famosa pinta ao lado da boca", disse o colecionador.

segunda-feira, março 10, 2008

VIDA LONGA A LOIRA FATAL!

Ela reeditou, nos anos noventa, a figura das loiras gélidas e fatais tão comuns aos filmes hollywoodianos dos anos cinquenta. A cena do interrogatório entrou para a história da sétima arte e Sharon Stone virou sinônimo de sensualidade. Nunca uma cruzada de pernas foi tão selvagem...
Hoje, a musa completa 50 anos de vida e os seus súditos batem continência para a rainha das loiras modernas!

terça-feira, fevereiro 12, 2008

A FANTÁSTICA MULTIPLICAÇÃO DE BOB DYLAN

I’M NOT THERE
Idem. EUA,2007. De: Todd Haynes. Com: Christian Bale, Cate Blanchett, Marcus Carl Franklin, Richard Gere, Heath Ledger, Ben Whishaw, Charlotte Gainsboug, Bruce Greenwood, David Cross, Juliana Moore, Michelle Williams.
Um dos melhores filmes de 2007 e talvez a melhor cine-biografia de uma artista pop já realizada para o cinema. Fugindo dos convencionalismos inerentes ao gênero e tão fartamente demonstrados em obras recentes como “Ray” (2004) e “Dreamgirls”(2006) - onde a narrativa burocrática, pontuada por flashbacks e passagens históricas, e os números musicais milimetricamente coreografados cheiravam a perfumaria barata - o filho do “cinema independente” americano Todd Haynes subverte a ordem cinematográfica vigente e concebe a história do papa do folk Bob Dylan pelo prisma da fantasia e do anti-convencionalismo. Nada mais óbvio para um cineasta que já estreou em 87 com outra cinebiografia polêmica: o média-metragem “Superstar”, onde a vida da cantora Karen Carpenter, vitimada pela anorexia, era personificada por uma boneca Barbie(!). Por não ter autorização da família e muito menos o direito de uso das músicas, a obra nunca foi exibida comercialmente e tornou-se objeto de culto em festivais alternativos e sessões undergrounds.
Neste “I´M Not There”, o que vemos na tela não é Dylan, mas sim as várias faces do artista personificadas por um séquito de atores de idades e sexos distintos. Sem seguir ordem cronológica, o roteiro é concebido como um mosaico de vários episódios que procuram registrar uma década (metade dos anos 60 até início dos 70) da carreira do artista, desde a sua consagração no cenário musical como cantor folk de protesto até a sua conversão ao cristianismo. A narrativa complexa também abre espaço para passagens ficcionais da vida de outros artistas que foram as grandes influências de Dylan. Assim sendo, acompanhamos lampejos da infância do trovador Woody Guthrie (composição espontânea do talentoso ator-mirim Marcus Carl Franklin), primeira referência musical de Dylan, no momento em que ele foge do interior sulista em busca da fama como clandestino num trem de carga; presenciamos um Billy The Kid (Richard Gere), envelhecido e aposentado da vida de crimes, em busca de redenção numa cidadezinha do velho Oeste; e, por fim, o poeta Arthur Rimbaud expondo comentários e frases sardônicas numa espécie de interrogatório improvisado onde a câmera só capta o rosto do ator inglês Bem Winshaw (revelado no filme “Perfume”) diante de um júri subjetivo.
A figura do próprio Dylan aparece na tela através de três alteregos: Jack Rollins, um astro folk no auge da carreira, mas cheio de dúvidas existenciais que culminam com o abandono de tudo em nome da fé ( personagem coroado com uma composição primorosa de Christian Bale, o melhor do elenco e o que mais se aproxima da persona peculiar de Dylan); O ator Robbie Clark (Heath Ledger) que entra em crise com a mulher francesa (Charlotte Gainsbourg) à mesma época em que interpreta o astro Jack Rollins no cinema; e o astro pop Jude Quinn (Blanchett de peruca, mais parecida com a nossa cantora Simone, do que com Dylan) que enfrenta rejeição por parte do público e da crítica ao tentar mudar os rumos musicais de sua carreira, abandonando o folk e mergulhando de cabeça no efervescente rock´n roll.
Entremeando a ação e contracenando com esses seis personagens, o complexo roteiro apresenta passagens reais da vida de Dylan (o lendário acidente de motocicleta;a hilária cena onde ele ensina os quatro Beatles a fumar maconha), momentos romanceadas e relata encontros do cantor com outros ícones do século XX (Os já citados Beates, Allen Ginsberg e outros). Tudo mesclado com canções consagradas de Dylan usadas em sequências inteiras e especialmente regravadas, para o filme, por artistas contemporâneos.
O título, estranho a princípio, resume bem o espírito anárquico do filme. Dylan “não está lá” fisicamente, mas a sua essência faz-se presente em cada fotograma. Os aficcionados pelo astro irão identificar, de imediato, cada referência, assim como os personagens reais soltos no roteiro. Outros irão estranhar tantas histórias contadas de forma desordenadas e sem um núcleo comum, mas ninguém ficará indiferente ao poder visual deste vídeo clipe lisérgico de mais de duas horas de duração sobre um dos ícones incontestáveis do Século XX.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

E DOS PIORES, NIGUÉM FALA?

Numa época pré-carnavalesca onde todos os cinéfilos se deliciam com a lista do Oscar e dão os seus palpites, vou nadar contra a corrente e homenagear o que de pior o cinema do tio Sam produziu ano passado. Com vocês a lista dos nominados ao mais temido prêmio do ano : o Framboesa de Ouro. É verdade que existem algumas injustiças, mas o objetivo final é mesmo tirar sarro com a idústria do entretenimento e jamais ser fidedigna. Afinal, eles se limitam a listar os filmes norte-americanos, imaginem quando descobrirem as produções da Globo Filmes?

Aqui estão os filmes com o maior número de indicações:


I KNOW WHO KILLED ME = 9 Nominations
Worst Screen Couple, Horror Movie, Screenplay, Director, Remake/Rip-Off, Supporting Actress, Actress (2x), Picture

I NOW PRONOUNCE YOU CHUCK & LARRY = 8 Nominations
Worst Screen Couple, Screenplay, Director, Supporting Actor (2x) Supporting Actress, Actor, Picture

NORBIT = 8 Nominations
Worst Screen Couple, Screenplay, Director, Supporting Actor, Supporting Actress, Actor (2x) Picture

BRATZ = 5 Nominations
Worst Screen Couple, Remake/Rip-Off, Supporting Actor, Actress, Picture

DADDY DAY CAMP = 5 Nominations
Worst Screenplay, Director, Prequel/Sequel, Actor, Picture

CAPTIVITY = 3 Nominations
Worst Excuse for a Horror Movie, Director, Actress


Uma péssima sorte a todos!

sábado, agosto 25, 2007

SANGUE SIM, SEXO NÃO

O novo filme de Ang Lee recebeu a censura máxima do MPAA (Motion Picture Association of America), excluíndo a classificação X destinada aos filmes pornôs. Foi classificada com um famigerado NC-17, que proíbe a presença de menores de dezessete nas salas de cinema, a não ser que devidamente acompanhados de pais ou responsáveis. Como nenhum adolescente se submete a um mico desses e considerando que a população americana é puritana até a medula, o resultado é um fracasso de público se considerarmos as altas expectativas de bilhetertias dos grandes estúdios. Graças a Deus o longa é produzido pela independente Focus Features que não manifestou o menor interesse de violar a integridade artítstica da obra efetuando possíveis cortes em prol do faturamento. Segundo fontes informais, o motivo de tanta celeuma é o de sempre: sexo. Ou seja, os americanos continuam os mesmos, assexuados e promovendo guerras mundo afora!

terça-feira, agosto 21, 2007

COMIDA E ESPERMA

FEED
Idem. Austrália, 2005. De: Brett Lenard. Com: Alex O’Loughlin, Patrick Thompson, Gabby Millgate, Jack Thompson, Rose Ashton. A/P. Comentário:
Thriller australiano sobre psicopata que seduz mulheres obesas para alimentá-las até a morte, filmando-as diariamente e colocando as cenas num site da internet. Identificado por um policial especializado em casos grotescos e também atormentado por traumas do passado (flagrou a mãe adúltera), o bandido foge e dá início a uma perseguição de gato e rato onde o computador passa a ser a principal ferramenta de investigação.
Baseado em fatos contemporâneos e cada vez mais corriqueiros, nos quais a Internet tem sido usada inadvertidamente para exorcizar todos os tipos de taras e fetiches de pessoas desequilibradas, protegidas pelo anonimato garantido pela tela fria do computador, “Feed” mergulha o espectador num mosaico de imagens mórbidas e fortes que podem chocar os mais sensíveis. Quando o filme tem início a vítima da vez é Deidre, que comemora a marca recorde de mais de 600 libras de peso prostrada na cama de onde não consegue mais sair, tendo como companhia o amante psicopata que gasta o tempo filmando a degradação física da mulher e promovendo orgias dignas do clássico setentista “A Comilança” do italiano Marco Ferreri, regadas a comida e esperma.
A idéia original é da dupla de atores centrais, ambos egressos da tv australiana. Alex O’Loughlin faz sem exageros o complexo psicopata atormentado pelas visões da mãe obesa e chegou a ser cotado para o papel de James Bond, perdendo a vaga para o britânico Daniel Craig. Patrick Thompson também está muito bem como o policial depressivo às voltas com a amante ninfomaníaca. Ele é filho do veterano ator Jack Thompson, presente no longa como o chefe de polícia. O filme perde um pouco o ritmo da metade para o final, mas recupera-se com uma conclusão recheado de sarcasmo. Foi realizado em vídeo de alta definição e merece ser descoberto. Inédito no Brasil.

terça-feira, agosto 07, 2007

UMA BELEZA EFÊMERA

VIRGINIA
Idem. EUA, 1983. De: John Seeman. Com: Shauna Grant, Paul Thomas, Janey Robbins, Peter Bent, Jamie Gillis, Lili Marlene, Hershel Savage. A/DR. 85 min
Comentário: Filme da época de ouro da indústria pornô norte-americana, onde as obras eram rodadas em película e existia uma preocupação clara por histórias enxutas (com começo, meio e fim bem definidos) e originais, que servissem não só de suporte às cenas eróticas, mas também funcionassem como um atrativo a mais dentro do conjunto oferecido. Neste “Virginia” temos um bom exemplo do requinte atingido pelas produções do período e de como um produto subjugado por boa parte da crítica e do público conseguiu se aproximar em termos de conteúdo a muitos filmes ditos “sérios” e classificados como sendo de “arte”.
O tema tratado aqui é o incesto e o diretor carrega nas tintas dramáticas para contar a história da jovem Vírginia que sente um forte desejo não declarado pelo pai, fotógrafo bem sucedido e cheio de amantes. Logo na primeira cena, vemos a garota espiando por uma porta entreaberta o pai transando com a namorada. Durante todo o longa ela tem visões eróticas com o genitor e ao final descobre que ele também tem um fetiche obscuro: fotografar casais desconhecidos em pleno ato sexual. Pai e filha expõem as suas fraquezas e consomem o seu desejo carnal numa cena de sexo lindamente concebida, com direito a travellings de câmera caprichados e enquadramentos elegantes. Aliás, elegância é o que não falta aqui graças ao belo elenco, a competente parte técnica e a boa música incidental. Apesar do tema espinhoso, é uma fita recomendada para as mulheres devido ao bom gosto geral.
No papel do pai temos o veterano Paul Thomas, que nasceu no berço de uma família de industriais e enveredou desde muito jovem pelo mundo das artes cênicas, tendo trabalhado na Broadway em musicais de sucesso como "Jesus Cristo Superstar", do qual também participou da versão cinematográfica dirigida por Norman Jewison em 73. A sua estréia no cinema pornô ocorreu em 1975 e perdura até hoje, consolidando nos anos 90 uma bem sucedida carreira como diretor de filmes hardcore. Pelo filme “Virginia” ganhou o seu único prêmio como ator no Adult Film Association of America, espécie de Oscar do cinema pornô.
O papel título é feito pela linda Shauna Grant, loira da época pré-silicone onde a beleza era um pressuposto genético. Típica garota americana, ela teve dificuldades para se firmar no meio devido ao seu vício em cocaína e a sua falta de entusiasmo durante as cenas de sexo. Em 1983, com menos de um ano de carreira e a marca de 30 filmes no currículo, deixou a indústria de filmes pornô. Mesmo loge do universo erótico, seu vício teve um efeito devastador em sua vida. Seu namorado, um traficante de cocaína chamado Jake Erlich, deu-lhe um trabalho em uma loja de materiais em couro que possuía. Quando foi preso com cargas de drogas, Shauna retornou aos filmes adultos. Em março de 1984, aos 20 anos, Shauna cometeu suicídioo com um rifle calibre 22. Sua morte deixou a indústria em choque. Muitos que a conheciam, incluindo seus pais, insistiram que ela foi assassinada. Alguns, entretanto, afirmaram que ela já havia tentando suicídio antes mesmo de deixar Farmington, com o intuíto de afirmar que ela já era uma garota com problemas. A carreira e morte de Shauna foram adaptados para um filme feito para a TV, chamado Shattered Innocence, um filme que lembra pouco o que realmente aconteceu.

segunda-feira, julho 30, 2007

MORRE O ESTETA DA PSIQUE HUMANA

O cinema perdeu hoje um de seus grandes mestres. Acordamos mais tristes nesta manhã do dia 30 de julho, com a notícia da morte do sueco Ingmar Bergman, aos 89 anos de idade. Especialista em dissecar a alma humana em obras herméticas e permeadas de uma beleza singular que descrevia a psique humana sem filtros de retoque, Bergman teve uma carreira extensa composta de inúmeros filmes e peças teatrais e uma vida tumultuada, onde sobraram amantes e esposas (foram cinco casamentos!).
Dentre as cenas memóraveis que concebeu, fica na memória o jogo de xadrez com a morte da obra-prima "O Sétimo Selo". Durante mais de oitenta anos Bergman conseguiu ganhar a partida, mas foi derrotado neste último domingo. Provou que era persistente e deixou como legado uma obra de rara beleza. Vida eterna ao mestre da melancolia!

terça-feira, julho 24, 2007

TALENTO NU

RAW TALENT
Idem. EUA,1984. De: Larry Revene. Com: Jerry Butler, Lisa De Leeuw, Cassandra Leigh, Joey Silvera, Rhonda Jô Petty, Taija Rae, Ron Jeremy. A/C. 82 min.
Comentário:
Sem dúvida, é um dos melhores pornôs produzidos em película pela indústria americana antes da invasão do vídeo, que tomou conta e empobreceu criativamente o cinema hardcore a partir dos anos 90. Aqui ainda podemos contar com um elenco que sabe atuar e com um diretor que, além das tradicionais cenas eróticas, sabe priorizar o boa trama. E olha que ele conseguiu antecipar em quase dez anos uma história que seria melhor explorada e desenvolvida pelo esteta Paul Thomas Anderson, na obra-prima Boogie Nights (1997). O fio condutor é o mesmo: a ascensão e decadência de um astro pornô.
Aqui acompanhamos as tentativas frustradas do ator amador Eddie Czeropski para conseguir um papel no teatro, enquanto tenta sobreviver fazendo bicos em subempregos, dos quais eventualmente é demitido. Incentivado por um amigo garçom, ele vai assistir a filmagem de um filme pornô e termina substituindo o ator principal que não consegue deixar o membro ereto. Em pouco tempo, Eddie vira sensação no meio e passa a ser assediado por diretores e produtores inescrupulosos. A decadência é inevitável e, após uma desilusão amorosa, ele tenta redirecionar a sua carreira como ator de Soap Operas televisivas, deixando para trás a carreira de mero brinquedo sexual.
O filme é uma crítica direta ao próprio sistema que o produziu, pois retrata a indústria pornô como um meio infestado de pessoas mal intencionadas e produtores desumanos, que visam o lucro a todo custo e tratam os atores com desdém. A obra ficou famosa não pelos seus méritos criativos ou pelas sequências eróticas, mas sim por intercalar várias mensagens subliminares durante a projeção. São pequenos inserts de 1 a 2 frames por segundo com frases como SEX, KILL, EAT e LAUGH, imperceptíveis ao olhar humano, mas capazes de influenciar o subconsciente de quem assiste. Até hoje não se tem notícia de espectadores que saíram transando loucamente e/ou matando por aí após ver a fita, mas esse instrumento duvidoso já foi realmente usado por muitas outras produções como importante ferramenta de marketing. Portanto, não estranhe se depois de assistir a um inocente desenho da Disney, você sentir um desejo incontrolável de adquirir os bonecos dos personagens ou visitar a Disneylândia.
Vale destacar os ótimos desempenhos de Jerry Butler como Eddie Czeropski e de Lissa De Leeuw como a diretora sacana e inescrupulosa. Jerry é loiro, de estatura mediana e pouco dotado para o pornô, mas convencia pelo talento e vitalidade nas cenas eróticas (em alguns momentos lembra muito Robert Downey Jr.). De Leeuw era uma ruiva gordinha e detentora de enormes seios. Infelizmente, ela foi uma das primeiras atrizes pornôs a falecer em decorrência da AIDS.

sexta-feira, julho 13, 2007

O OLHO QUE TUDO VÊ

COMING APART
Idem. EUA, 1969. De: Milton Moses Ginsberg. Com: Rip Torn, Sally Kirkland, Viveca Lindfords. A/DR. Comentário:
Fita de vanguarda com estrutura experimental bastante original. Psiquiatra nova-iorquino oculta uma câmera super 8 na sala de seu apartamento. A câmera é estrategicamente colocada defronte a um sofá, adornado por um grande espelho capaz de refletir todo o ambiente ao redor. O objetivo inicial é filmar as suas consultas diárias, mas ele toma gosto pela nova brincadeira e passa a registrar fatos banais do seu cotidiano como as constantes brigas com a ex-esposa, a relação conturbada com a amante maníaco-depressiva e uma orgia em companhia de amigos.
Assim como voyeurs de primeira viagem, assistimos a todo o filme pelas lentes imóveis da câmera do psiquiatra num exercíco curioso de metalinguagem. Vemos o mesmo que ele vê, como cúmplices impassíveis de seres humanos frágeis que desnudam as suas angústias diante de nossos olhos. Apesar da imobilidade proprocionada pelo plano fixo, os personagens comandam a ação e movimentam-se sem saber que são registrados. Só ficamos angustiados quando eles somem do foco e temos que adivinnhar o decorrer da ação (caso da seqüência final, onde um tiro é dado e ficamos sem saber se alguém foi atingido), num exercício de imaginação só proporcionado pela literatura.
Filme de estréia de Ginsberg, que depois faria mais um único longa-metragem (o terror B “O Lobisomem de Washington” de 1973) e ganharia prestígio como editor de filmes de terceiros. Por conter algumas ousadias como a nudez frontal de um travesti, “Coming Apart” quase não foi visto em sua estréia já que recebeu a temida classificação X do MPPA (órgão responsável pela censura nos EUA), destinada aos filmes pornográficos e ficou poucos dias em cartaz. Descoberto pelos franceses, foi relançado em 2004 pela Gémini Films e virou cult. Mais do que merecido.
Além da competência interpretativa habitual de Rip Torn como o psiquiatra, quem rouba o filme é uma jovem (e constantemente nua) Sally Kirkland, excelente no difícil papel da amante tresloucada e bipolar, que vai da alegria contagiante até a mais profunda depressão em questão de segundos. Um desempenho magistral que foi obscurecido pela péssima distribuição do filme, fazendo com que a carreira de Kirkland desvalace para pequenas pontas durante todos os anos setenta, só sendo reerguida em 87 com o filme “Anna” que lhe proporcionou o Globo de Ouro de melhor atriz dramática e uma indicação ao Oscar. Coisas do cinema.........

domingo, julho 01, 2007

O PEQUENO CÉU

O PEQUENO CÉU
El Cielito. Argentina, 2004. De: Maria Victoria Menis. Com: Leonardo Ramirez, Mônica Lairana, Dario Levy, Rodrigo Silva. L/DR. 93 min. Comentário:
Que filme, que filme! Daquelas obras que assitimos ao acaso, sem referências ou expectativa alguma e que nos arrebata de maneira irreversível. Mais uma prova cabal do grau de excelência dos novos realizadores argentinos. Com um estilo minimalista, de pouquíssimos diálogos e muita sensibilidade, a diretora compensa habilmente os parcos recursos que tem com o ótimo elenco e as belas paisagens naturais. Ela narra a singela história de Félix, jovem andarilho de vinte e poucos anos, de quem não sabemos o passado e cujo futuro é incerto. Ao pular de um trem em movimento, onde viajava clandestino, vai parar numa estação perdida no interior da Argentina. Sem dinheiro e rumo incerto, o rapaz puxa conversa com Roberto, homem marcado pelo tempo e vestido de maneira desleixada, com o objetivo claro de comer os restos de comida deixados pelo homem sobre o balcão do bar.
No segundo encontro dos dois, Roberto convida o andarilho para laborar em sua pequena propriedade rural, ajudando na colheita de frutas silvestres, plantadas e comercializadas de forma improvisada em bancas de madeira colocadas estrategicamente à beira da estrada. Félix prontamente aceita a oferta e vai viver com o agricultor e sua pequena família, formada pela sofrida e submissa esposa Mercedes e o gracioso Chango, filho do casal de poucos meses de vida. A empatia entre Félix e o bebê é instantânea e o rapaz de olhos tristes passa a ter os dias preenchidos pelo sorriso doce e farto daquele pequeno ser. Mas nem tudo são flores, e o ambiente de paz começa a ficar tenso com a forma violenta e gratuita com que Roberto trata a mulher, imprimindo um rol quase que diário de tapas, chutes e palavras de baixo calão, potencializadas pelo vício alcoólico do homem.
Certo dia, Mercedes some. Suicídio ou fuga? O roteiro não explicita, mas deixa pistas sobre o destino da mulher ao mostrar as suas vestes desarrumadas no guarda-roupa, assim como a mala intacta sob a cama. Apreensivo sobre o futuro de Chango e certo que Mercedes não irá mais voltar, Félix rouba algum dinheiro e parte com o menino para Buenos Aires, deixando para trás Roberto incosciente e totalmente consumido pelo vício da bebida. No trem, Félix observa as imagens do povo pobre e sofrido que vive no interior e que guarda muitas semelhanças com a nossa brava gente brasileira. Nesse momento, ele recorda da sua infância feliz ao lado de uma mulher idosa, que poderia ser sua mãe e/ou avó (isso nunca fica claro). Ao fundo, pontuando esse momento de pura emoção, ouvimos a bela música “El Jangadeiro” na voz da cantora Liliana Herrera, uma espécie de Elis Regina local.
Ao chegar a capital, Félix prontamente se hospeda num hotel barato e vive dias de intensa harmonia ao lado de Chango. Mas o dinheiro acaba e os dois são despejados. Sem perspectivas, vão parar na rua como indigentes, sobrevivendo de esmolas e dormindo ao léu, esquivando-se das rondas policiais e dos olhares gananciosos dos marginais de plantão. Desesperado, Félix é cooptado por um deliqüente de rua que vive de pequenos golpes e aceita participar de um roubo, em troca de guarita e comida. Pela primeira vez em dias, ele deixa Chango sob os cuidados de outra pessoa, a irmã do deliqüente, e despede-se do menino prometendo voltar. Mas a sua promessa não se concretiza e o rapaz termina prostrado ao chão, abatido por uma bala. Ao olhar para o céu, percebe-se no canto da sua boca o esboço de um pequeno sorriso, pois em meio as estrelas ele consegue ver refletido o rosto da mulher que o criou e a figura terna do pequeno Chango. Tocante.
A trajetória pontuada pela angústia e repressão social enfrentada pelo personagem Félix na segunda metade do filme, nos remete muito a via crucis inexorável do pai deseperado no clássico do neorrealismo italiano “Ladrões de Bicicleta”. A própria “naturalidade” do elenco amador e das locações fazem de “Pequeno Céu” um exemplar moderno do cinema italiano realizado no pós-guerra, com pouco dinheiro e forte apelo crítico-social. Sinal inequívoco de que beber na fonte do passado não gera somente obras anacrônicas, mas sim fitas realistas, que driblam a falta de recursos com criatividade e, sobretudo, sensibilidade. O filme recebeu vários prêmios no Festival de San Sebástian e no Festival de Havana. Trata-se do terceiro longa-metragem da diretora Maria Victoria Menis, que estreou em 89 e divide o seu tempo também escrevendo e dirigindo para a TV.

quarta-feira, junho 20, 2007

PURPURINA PURA....

20 CENTÍMETROS
20 Centimetri. Esp., 2005. De: Ramón Salazar. Com: Mônica Cervera, Pablo Puyol, Miguel O´Dogherty, Concha Galán, Lola Dueñas, Juan Sanz, Najwa Ninri, Rossy De Palma, Pilar Bardem. A/M.112 min. Comentário:
Só mesmo um conterrâneo de Pedro Almodóvar para conceber este delírio musical homo-erótico, impregnado de luzes, cores, muito humor e uma pitada de drama. Em seu segundo longa, o jovem Ramon Salazar demonstra fôlego de veterano ao narrar com extrema competência técnica e apurado estilo visual a história cheia de sonhos e desilusões de Marieta, jovem travesti madrilenho que deseja acabar de uma vez por todas com a incômoda herança familiar: um membro fálico de 20 centímetros! O que seria motivo de orgulho para muitos homens e objeto de disputa entre as mulheres, transforma-se num pesadelo diário para um homem com alma feminina, que sobrevive vendendo o próprio corpo nas ruas de Madri e sofre com as crises constantes de narcolepsia, distúrbio que lhe promove o sono profundo e o deixa dormindo nas horas mais inusitadas. Invariavelmente, Marieta é encontrada desfalecida e abandonada nas sarjetas, com as roupas rasgadas e sem saber muito bem o que aconteceu. Só lhe cabe recolher o pouco de dignidade que ainda resta e voltar para o pequeno apartamento de subúrbio que compartilha com Tomás, anão e melhor amigo que vive envolvido em pequenos golpes e que sonha torna-se músico. Ao redor dos dois, uma fauna urbana repleta de tipos esquisitos, onde se destacam a vizinha gorda e mãe de um garoto mulato, e o másculo repositor de verduras da feira livre que passa a freqüentar os sonhos eróticos do travesti, mas logo o decepciona ao demonstra ser passivo durante o sexo.
O ponto alto do longa, são os caprichados números musicais encenados durante os surtos inesperados de sono da protagonista, onde a fantasia corre solta e ela vê-se como uma glamurosa estrela hollywoodiana em meio a cenários inusitados e coloridos, onde amigos e clientes viram personagens da ação, dançando e cantando como profissionais. Fazendo uso do mesmo recurso consagrado pelo australiano Bazz Luhman no genial “Moulin Rouge”, o diretor usa e abusa de canções pops consagradas nas vozes de Madonna, Freddie Mercury e outros para emoldurar as coreografias, gerando empatia imediata e transformando-as em números dignos da Broadway .Outro grande achado é a interpretação agridoce da notável Mônica Cervera, estrela dos primeiros trabalhos do diretor (o curta “Hongos” e o longa “Piedras”). Detentora de uma figura esguia e estranha que lembra muito a musa almodovariana Rossy De Palma, homenageada aqui numa pequena ponta como uma colega de rua de Marieta. Também merece destaque a corajosa composição do galã Pablo Puyol, como o amante passivo de Marieta, viciado em sexo anal. Uma fita despojada, colorida e extremamente bem conduzida. Infelizmente, os mais puritanos ficarão chocados com algumas liberdades e ousadias, mas são detalhes necessários ao tema e só tornam o resultado final mais divertido e saboroso

sábado, junho 16, 2007

TAXIDERMIA

Três histórias, três épocas e três gerações. Avó, pai e filho tendo como cenário a ascensão e queda do comunismo na Hungria. O primeiro trabalha como capataz na fazenda de um militar em pleno inverno e tenta sublimar os seus desejos carnais, mergulhando num mundo de fantasias, onde a realidade funde-se com a ilusão e o resultado é imprevisível. O segundo é fruto do adultério da mulher do patrão com o capataz e desde bebê chama a atenção por ter nascido com uma deformidade genética que provocou uma protuberância ao final da coluna, que faz lembrar um rabo suíno. Comilão desde criança, torna-se campeão num esporte mórbido onde os competidores (todos obesos) comem até vomitar (!). O terceiro é taxidermista e tenta dividir-se entre o trabalho extenuante que consiste em preservar as características físicas de animais mortos através de metódos científicos e os cuidados com o pai, que ficou imóvel e grotesco devido ao excesso de peso.
Através dos três personagens, acompanhamos flashes da história da própria Hungria, já que o longa começa na Primeira Guerra Mundial, adentra os anos de chumbo do regime comunista e chega aos dias atuais sem fazer concessões de nenhuma ordem. Caprichando na estética visual e no realismo gráfico de algumas cenas, capazes de revirar o estômago e colocar para correr os espectadores mais sensíveis, o diretor Pálfi propõe um jogo fascinante que coloca em cena temas complexos e vitais aos seres humanos como o sexo, a comida e a morte. Por estar dividido estruturalmente entre esses três ciclos, “Taxidermia” foi comparado por alguns críticos ao filme “Saló” do mestre Píer Paolo Pasolini. Comparação essa totalmente inócua, já que o segundo é uma das mais duras e cruéis críticas ao nazismo já feitas e considerado o filme mais transgressor de todos os tempos, tendo sido banido em vários países à época de seu lançamento.
O roteiro, escrito pelo próprio diretor em parceria com a esposa Ruttkay, é baseado nos trabalhos do escritor húngaro Parti Nagy Lajos e impregnado de uma fina ironia, presente até nos momento mais mórbidos e olha que não são poucos. Durante toda a trama somos desafiados por cenas desconcertantes e ao mesmo tempo necessárias ao contexto tratado. Logo de início, um pênis ereto e flamejante serve de metáfora ao desejo reprimido; em seguida, o vômito constante dos personagens indicam que os excessos (independente do que sejam) nunca trazem felicidade e causam dependência; e, por último, o volume de sangue e vísceras revelam a fragilidade humana diante da morte.
Um belo e forte tratado em celulóide sobre a vida e a morte, que só peca pela falta de consistência do roteiro ao tentar ligar as três histórias, já que a primeira fica destoante se comparada as outras duas, que apresentam uma seqüência lógica ao manter a figura do pai obeso como ponte narrativa, enquanto que os personagens do primeiro segmento somem totalmente na trama seguinte. Mas o resultado final é realmente instigante e inovador. Uma curiosidade: a trilha sonora é assinada por Amon Tobin, que nasceu no Rio de Janeiro e pratica o trip-hop.
Taxidermia - Der Ausstopfer. Hung./Áustria/França, 2006. De: György Pálfi. Com: Csaba Czene, Gergely Trócsányi, Marc Bischoff, Adél Stanczel, Piroska Molnár. 91 min.

quarta-feira, junho 13, 2007

TAKE OFF

Antes de tudo, quero ressaltar que o objetivo deste blog é falar sobre cinema, independente do gênero, país de origem e duração. Portanto, as obras pornôs de qualidade que incrementaram os sonhos molhados de muita gente (principalmente nos áureos anos 70) também serão bem-vindas. É o caso de TAKE OFF (EUA, 1978), uma feliz adaptação da obra clássica “O Retrato de Dorian Grey” de Oscar Wilde, produzida na época de ouro do pornô americano. Contando com o inteligente roteiro de Daria Price e a competente direção de Armand Weston (que dirigiu apenas oito filmes e é responsável pelo clássico do gênero “A Defiance of God” de 1975), acompanhamos dos anos 30 até o final dos anos 70, as várias aventuras sexuais do playboy Darrin Blue, que misteriosamente permanece jovem, enquanto a sua imagem num antigo filme de 8mm sofre o desgaste do tempo. O seu destino começa a mudar quando um casal descobre o antigo filme e a mulher começa a desconfiar que homem belo e sedutor que conheceu a beira da piscina é mesmo homem do filme.
Eficente reconstituição de época, elenco repleto de beldades que vão desde a veterana Georgina Spelvin (a inesquecível Miss Jones) até a linda Annette Haven, com direito a luxuosa ponta do travesti Holly Woodlawn (estrela do filme TRASH e amiga pessoal de Andy Warhol) como uma cantora de cabaret no segmento relativo aos anos 40. Enfim, um filme pornô de muita classe.
O papel principal é vivido pelo ator Wade Nichols, um caso a parte dentro da indústria pornô. Considerado um dos mais belos atores do gênero, Nichols tinha penetrantes olhos azuis e um típo físico próprio dos nos setenta, com direito a peito cabeludo e um indefectível bigode. Ele começou a carreira no início dos anos setenta em fitas gays e logo passou ao cinema “straight”, ou seja, filmes heterossexuais onde transava com mulheres. Rapidamente alcançou o estrelado no meio e teve o seu grande momento com “Take Off”. Paralelo a carreira cinematografica, ele gravou um LP com o nome de Dennis Parker e estourou nas pistas de dança no final dos nos 70, com hits como “Like an eagle” e “I´m A Dancer”. Esta segunda música fez parte da trilha sonora da novela Marrom Glacê e o ator esteve no Brasil para promovê-la em 1979. Neste mesmo ano, a sua carreira deu uma guinada de 180 graus e ele conseguiu um papel fixo na telessérie de sucesso “The Edge of Night” da poderosa Rede ABC, onde viveu o Chefe de Polícia Derek Mallory de 79 até 84. Infelizmente, o ator morreu no dia 28 de janeiro de 1985. Em algumas publicações, a causa mortis alegada é que uma séria de complicações decorrentes da AIDS ocasionou o óbito, em outras fontes a informação é que o astro teria cometido suicídio ao tomar conhecimento que era portador do vírus. Polêmicas a parte, Wade Nichols permanece imortal nos filmes e nas alegres canções que marcaram a era disco.